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Uberaba, 24 de outubro de 2021 -

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Vânia Maria Resende

A identidade das bibliotecas

A biblioteca como construção material tem o seu lugar; seja a particular, escolar, pública, comunitária. Fisicamente, integra o ambiente doméstico, educacional e vários espaços sociais (inclusive abertos, como parques); é suporte importante de produção intelectual, informação, enriquecimento cultural, lazer no lar, no trabalho, na escola e em centros de cultura. A célebre Biblioteca de Alexandria (Egito) é famosa por ter sido uma das maiores sedes de conhecimento instalado no século III a.C e pelo objetivo audacioso que moveu a sua criação, o de agregar obras de todos os povos. Por isso, é símbolo da grandeza da casa que reúne e guarda livros. Na obra “Biblioteca à noite”, Alberto Manguel mostra um tipo curioso de biblioteca móvel, um biblioburro, no interior da Colômbia. Todo transporte itinerante é válido para levar o livro ao leitor: bicicleta, mala, cesta, baú, barco – morada provisória de pequeno acervo; ou van, ônibus – morada fixa de acervo maior.

Sobre a cogitação de desaparecimento do livro impresso e da biblioteca física, acredito que, se depender dos que têm formação humanística, não se consumará, o que não quer dizer que reprovem a coexistência desses bens, que são marco civilizatório indestrutível, e novas conquistas, como a biblioteca digital e e.books. Expressão de afeto é mais intensa presencialmente do que por meio de imagem transmitida na tela de celular, computador, TV. Tanto o mergulho na história documentada em um museu, como a fruição da ambiência arquitetônica de antigas catedrais são mais profundos quando se entra neles do que vistos à distância; por projeções visuais, a sensorialidade não alcança nuanças da consistência da materialidade. Também, a apreciação do efeito estético de cor, textura, luminosidade, forma... na pintura, arquitetura, escultura e outros objetos de arte é mais sutil face a face do que por meio da imagem digital ou no papel. Com livro impresso e biblioteca física não é diferente: o contato corporal é o início de interações mais significativas.

A Biblioteca Pública Municipal Bernardo Guimarães, parte importante da história de Uberaba, fez 111 anos em 2020. É exemplo de que uma biblioteca física de perfil digno, ativa e bem estruturada, com equipamentos, acervo e recursos humanos de qualidade, compõe o patrimônio cultural de uma cidade; demovê-la daí seria desagregar a identidade local. Bibliotecas são guardiãs da memória e sua edificação ao lado de igrejas, escolas, teatros, cinemas... corporifica a evolução da humanidade. Existem lindas bibliotecas no mundo, cujo projeto arquitetônico carrega a História, como a bela Biblioteca Nacional, sediada no Rio de Janeiro. Preciosa também é a biblioteca particular de livros raros do bibliófilo brasileiro José Mindlin, constituída durante mais de 80 anos. Foi doada à USP-SP e recebeu o nome de Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin; com cerca de 30 mil títulos e 60 mil volumes, localiza-se na cidade universitária, em espaço projetado à altura do seu valor e peculiaridade.

No período da pandemia, vendo lives, entrevistas, transmissão de notícias diretamente de escritório, consultório, residência, observei os livros na retaguarda, integrados ao espaço pessoal, como suporte e fonte de consulta, pesquisa, conhecimento. Bibliotecas propriamente vi poucas; predominantes são livros em estantes, às vezes ocupando também peças próximas. Objetos junto aos livros dão dica da identidade do proprietário: miniatura, bonequinho de coleção, troféu de premiação, quadro de pintura, planta, amuleto; e porta-retrato, que é do mesmo campo de afeto e memória do livro. Acervo, estante, objetos definem um ambiente ou outro: simples, sofisticado, requintado, lúdico, sóbrio, leve, escuro, claro. Livros certinhos, em arranjo rígido, parecem indicar que não saem dali facilmente; os inclinados e espaços entre eles são pista de que algum foi retirado para leitura. Constatação importante mesmo é que biblioteca particular revela condição de aquisição socioeconômica e nível de escolaridade superior. Ter livro em casa deveria decorrer de necessidade cultural, possibilidade e hábito de compra, por parte não só de uma minoria privilegiada. Para parcela grande de brasileiros que vive em espaço apertado onde falta até feijão com arroz, é inviável possuir esse bem que custa dinheiro.

Vânia Maria Resende é Educadora, doutora em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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