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Uberaba, 24 de agosto de 2019 -

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Vânia Maria Resende

GENTILEZAS NO SALÃO DE BELEZA DA MARTA

A gentileza que brota de razões interiores sinceras, incompatíveis com máscara (que serve a quem se esconde de si mesmo, ou se esforça para ser o que não é), se expressa em quaisquer condições e lugares, por mais inusitados que sejam, como um salão de cabeleireira. Esse tipo de gentileza é livre de sujeição a rituais postiços; sua essência de fundo amoroso move quem sai de si, de forma natural, e alcança e reconhece o outro no valor existencial do ser. A naturalidade da expressão subjetiva define a riqueza da reciprocidade entre identidade e alteridade, quando nem o eu nem o outro se igualam a objeto utilitário descartável. Há diferença entre manipular/ ser manipulado e ser/ estar disponível na relação de envolvimento, de ressonância e comunhão, em respostas de acolhimento àquilo ou a quem afeta o sujeito e o solicita.

A gentileza de face verdadeira pode se dar em pequenas manifestações: na amenidade da expressão corporal, alegria facial, doçura do olhar, leveza da voz, brandura do gesto; em um “muito obrigado”; no saber ouvir e até no simples ato de estar perto, em proximidade silenciosa. Ela torna afável um atendimento público, cria empatia em favores no trânsito, na informação correta sobre um endereço... Mantém-nos humanos no cotidiano. Não fixada no egoísmo, a pessoa gentil se caracteriza pela abertura afetiva e pela atenção ao que está fora; por isso, ela tem um grau de envolvimento responsável com o mundo de um modo geral, sendo parte importante no cuidado que sustenta a teia de interligações da vida.

Quem depreda prédios e monumentos, incendeia matas, polui rios e o ar; quem emite sons altíssimos, que agridem os que estão por perto, não é gentil; muito pelo contrário. A gentileza não combina com o comportamento preguiçoso, omisso, encaramujado, de baixa vitalidade e sem reação empática. A falta dela obstrui as vias de conexão, pessoalmente ou por telefone, quando a um “oi, tudo bem?” o interlocutor responde: “tudo bem”, em tom cortante, displicente, ou com o olhar focado em outra direção. Ocorre aí entrave ao diálogo. Já o tom afável rompe a barreira de indiferença, distanciamento, desinteresse, autossuficiência.

O clima que torna o salão de cabeleireira da Marta receptivo e leve concilia gentileza e harmonia, a começar do acolhimento dela própria; da sua filha Taciana; da funcionária que as auxilia; da manicure Lena. Nesse salão há espaço convidativo à sintonia com a natureza: em área ao ar livre, um banco próximo a uma jabuticabeira chama à pausa, para desfrutar a presença da árvore, que, mesmo não sabendo, também é gentil com o ambiente, dando frutos doces, mais de uma vez ao ano.

Das conversas com a Marta, uma das histórias tem algo a mais, somando-se ao clima de gentileza do salão. Uma de suas clientes está com mal de Alzheimer. É uma professora universitária aposentada, e quem a conhece sabe que sempre primou pela delicadeza, qualidade que a sua memória não apagou. Tanto é que, ao final dos atendimentos no salão, ela sempre pede desculpas à acompanhante, pelo tempo de espera com ela.

A gentileza sincera e amorosa é afirmação de vida; o seu oposto, ou o uso falso que se faça dela é trapaça, representação fingida. Neste sentido, quem se trapaceia ou trapaceia alguém desqualifica-se como sujeito, como também desqualifica o outro que ele faz de joguete, marionete. A cliente do salão da Marta tem a alma refinada e mantém as reservas de fineza; sua essência não desaprendeu a genuína gentileza. Continua sendo capaz de se preocupar com quem gravita fora do centro do seu eu. Ainda que conviva diariamente com a cuidadora, a rotina do estarem juntas não desgasta ou desfigura sua maneira delicada e cuidadosa de ser com a outra.


 

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