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Uberaba, 23 de agosto de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Paz catirada

Uma das grandes bandeiras levantadas pela sociedade contemporânea é a busca e a manutenção da paz. A todo custo a lógica da quietação é espalhada aos quatro cantos dessa Terra, se é que isso é possível. Mas uma pergunta se apresenta inquietante: a qual custo essa paz foi alcançada? Quando se olha para a maioria dos países tidos como desenvolvidos, o que se percebe é que a humanidade aceitou uma prática colonizadora como mantenedora da paz necessária. Em troca dela, inúmeros benefícios são colocados na vida para que o humano permaneça sossegado, numa espécie de catira. Cartão de crédito, redes sociais, TV a cabo barata, internet a preços acessíveis (veja como o governo é generoso com a banda larga “popular”), novos shoppings centers, milhas para serem gastas com o sonho dourado de ir aos Estados Unidos, ou para a Europa, conhecer o que é mundo...

Sinceramente me pergunto o que houve com aqueles tempos de revolta... de revoluções e guerras por causas realmente nobres. Hoje estamos reduzidos a ações de caridade (que não passam de assistencialistas), a crises de histeria nas redes sociais, criando movimentos sociais (curiosamente sem movimento, pois esse envolve matéria, física, gente), propondo a revolta e expondo o nojo da sociedade com políticos, política, economia. Propomos, numa dinâmica inquietante, a aceitação de todo e qualquer novo paradigma, novas causas; rejeitamos qualquer tipo de agressão, de violência (a menos que sejamos os lesados – fisicamente ou economicamente – em alguns casos); nos omitimos diante de situações extremas, mas adoramos meter o bedelho em assuntos que envolvem discriminação, mesmo sem entender do que realmente se trata. Não temos a capacidade de observar que dentro de cada humano vive um ser racista (é, racismo... pois ele não acontece só com os negros), preconceituoso e agressivo, esperando para ser libertado... mas o superego, a paz social, me obrigam a sufocá-lo... Hoje, não temos mais coragem de exprimir nossas opiniões, com receio de como serei visto pela sociedade, e se serei aceito pela mesma. E cá pra nós... todos rejeitamos alguma coisa, alguém, temos preconceito com situações e pessoas, e acabamos sendo agressivos em algumas situações.

A apatia social em que vivemos, a anomia que defendemos, a alienação consciente que elegemos como meta em nossas vidas, se tornam requisitos necessários para a manutenção da paz. Talvez seja necessário regressar ao período bélico de nossa história para resgatar o humano que luta, age, exprime a opinião, não aceita, fala, grita e clama. E nessa mesma época era muito mais fácil conviver... o humano era conhecido. Hoje, com tantas possibilidades de identidade, com tantas ocupações sociais, com a manutenção da paz como objetivo, conhecer o humano é praticamente impossível! Ainda mais por que a mutabilidade é uma característica contemporânea. Não uma mudança para o crescimento, mas uma readequação constante aos modelos sociais criados; programas de informática novos; novos paradigmas; combate a novos preconceitos; novas concepções de humanidade; ao novo cartão; a nova tecnologia adquirida; ao novo namorado(a), marido/esposa, cachorro/cadela, cerveja/cervejo... cuidado com o machismo... mau humor... tédio... falta de educação... preconceito... e, claro, não se esqueça da paz.

 

(*) Mestre em Filosofia e professor universitário
gonsavios@gmail.com

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