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Uberaba, 15 de setembro de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Homunculus acto magnus est

No opúsculo anterior, a discussão estava focada nas instituições sociais. Dando continuidade à reflexão iniciada, a terceira instituição social é a escola. A escola – brasileira especialmente – se apresenta como o espaço da ciência. Um espaço que, obrigatoriamente, deve contribuir para a formação do humano. Uma formação “homuncular”. O modelo educacional do Brasil é engessado. A forma da construção do ensino-aprendizagem contribui para a manutenção da ordem predeterminada, que obriga a cada dia o aluno – ser sem luz própria – a se enquadrar na forma, daí formação. O fator a ser considerado é que o modelo não é construído pelos professores, ou pela escola. Muitas vezes ele vem determinado pelo governo, pelo sistema educacional vigente, que obriga a escola e todos os seus a seguir um plano educacional, que em nada considera a localidade. Desde livros até a merenda das escolas são limitados pelas ações de um sistema que modela o homúnculo de cada um.

Na sala de aula não é diferente. Muitos professores estão amarrados ao pouco tempo de preparo das aulas; os três turnos de trabalho dificultam tal feito. Afinal, é preciso optar: sobreviver ou qualificar as aulas, pois o reconhecimento do profissional é ínfimo. A classe não ajuda. As greves se tornam motivo para pesca e descanso, não reivindicações. Assim, fica mais fácil seguir o sistema do que criar o novo. Até porque as verbas escolares são destinadas por testes desse mesmo governo; então, se a escola precisa funcionar, acaba que a submissão é necessária. Quando se age de maneira contrária ao sistema, pode-se ganhar a perseguição e terminar exonerado: vide Corina de Oliveira.

A quarta instituição social são as religiões. Essas, muitas vezes, colocam o humano como um ser desprezível e subjugado. Inferior e incapaz. Longe da superioridade das forças sobrenaturais. O bem da verdade é que muitas religiões preferem trabalhar com o medo, com a opressão, com a ditadura da fé, ao invés de se criar meios para a conscientização, para a transformação e renovação. O religar acaba sendo trabalhado como obrigar. A culpa humana é levada ao extremo, e muito pouco se trata dos valores, das virtudes, dos feitos.

O fato é que o humano é muito mais do que um ser relegado a cumprir etapas de um processo que o levará a habitar instâncias superiores, muito, mas muito melhores que as terrenas. O que é preciso deixar claro é que o humano é um ser capaz, criativo, multifacetado, em constante transformação; nunca se esvai, se amplia, multiplica, congrega; define, cria e gera; sente, sofre e se angustia, numa continuidade vívida que transpõe a lógica minguante, de uma prática simplista, sufrágio constante e condição precária.

Homunculus acto magnus est! O homem pequeno na verdade é grande. Pequeno enquanto condição universal! Pequeno enquanto condição biológica. Frágil, dependente... carente de apoio externo. Constante na necessidade de ser com os outros para ser no mundo. Mas grande em capacidade, em disponibilidade, em solidariedade. Grande em transformação, em mudanças, em inteligência. Grande em capacidade geradora. Um ser que é artífice e artefato de sua história como nenhum outro ser do universo. Um ser que possui a liberdade de se aprisionar, e aprisionar-se na liberdade. Simplesmente humano.

 

(*) Professor universitário

DESENVOLVIDO POR Companhia da Mídia