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Uberaba, 19 de agosto de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Ser político

O que é ser político? Para a maioria daqueles que “exercem tal função”, ser político é, ironicamente, prestar um serviço à sociedade; ou ainda, é contribuir para um Brasil melhor. Ou mesmo dedicar seu trabalho aos entes queridos em determinado momento. O ponto central dessa pergunta é exatamente o fator motor de uma segunda pergunta: político é ser o quê? Eis o problema.

Muitos não sabem a distinção entre ser e estar. Verbos comuns, partícipes do cotidiano nacional, do ideário gramatical. Mas, para a filosofia – evoco aqui a licença poética para rejeitar a etimologia da palavra –, permitam-me, têm significados mais profundos do que ações. Estar denota um tempo determinado, algo que pode ser encarnado, sentido. Mormente é encarado como uma condição ou escolha. Estar é transitório, passageiro, temporal, mutável, instável, líquido, parafraseando Bauman. Já o verbo ser denota profundidade. Tanto que a filosofia dedica uma atenção especial ao ser, na ontologia. Ser é permanente, eterno, atemporal, imutável, estável, sólido. Ser é substantivo; é predicativo de identidade, de existência.

Hodiernamente, muitos acham que a política é “benefício” de alguns. Outros, que é um caminho curto para o sucesso permanente. Alguns, que é a válvula de escape para quem não obteve o esplendor triunfal em determinada carreira. Porém, a política, segundo Aristóteles, é algo intrínseco ao humano. É uma condição irrenunciável, permanente e insubstituível. Não quero aqui ter a pretensão de elaborar uma “receita de bolo” para a solução dos problemas do país, mas, se buscássemos compreender a distinção entre estar e ser político, veríamos que a solução está mais próxima do que imaginamos. O primeiro passo é querer.

Um grande amigo, que prefiro manter no anonimato, sempre dizia que os “bons não formam quadrilha”; e completo: o Estado não é organizado como o crime. Precisamos mudar essa realidade. É preciso assumir a nossa sociedade; arregaçar as mangas e cuidar do que é nosso, e não deixar que homens e mulheres, de quatro em quatro anos, levantem as mesmas mãos em reuniões colegiadas, simbolizando mudança e união falsas e passageiras. Os que são políticos hoje, em sua maioria, não o foram nos últimos anos. Agora, ano eleitoral, veremos homens e mulheres correndo bairros, locais e enchendo a internet de suas propagandas, de seus feitos maravilhosos, de como foram bons para a sociedade. Aquele outdoor com a ambulância que “ele deu” para a cidade. Homens e mulheres que estão políticos. São passageiros. Não encarnaram o real significado do que é ser político(a). Não introjetaram a política em sua essência. Não veem os trabalhos de pessoas desconhecidas em asilos, creches, escolas, sanatórios, hospitais, batalhões e delegacias, enfim, os verdadeiros políticos e políticas de nossa sociedade.

Heidegger dizia que era preciso fazer a viravolta fenomenológica do dasein. Que era preciso que cada pessoa conseguisse voltar-se para si mesma e encontrar o seu ser-aí. A esperança é de que as pessoas comecem a enxergar os políticos, numa viravolta da consciência eleitoral, e saibam escolher os que são políticos. Escolher aqueles e aquelas que consigam encontrar, no verdadeiro ser político, a defesa dos direitos, da igualdade, da democracia, da liberdade, da sociedade. Homens e mulheres que não aceitem a corrupção, o roubo, a injustiça, não por conta de matérias jornalísticas ou prêmios de menção honrosa, mas sim pelo simples e profundo ato do ser ético, de ser consciente, interconsciente e holosconsciente. É preciso ser autêntico, pois o ser é, e o não ser não é. 

(*) Filósofo e professor
oivasavio@gmail.com

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