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Uberaba, 23 de agosto de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Reforma da consciência

Toda ideia precisa de uma contraposição. Assim versa a dialética socrática. Tomando como base a realidade brasileira, na qual se evidencia a necessária participação popular na política nos últimos dias – o que, pela lógica da filosofia política aristotélica, é uma condição inata ao humano –, é possível, e necessário até, evocar, aqui, uma antítese.

Umas das grandes reivindicações daqueles que exerceram parte de seus papéis como cidadãos foi a reforma política. Pergunto-me: qual o real objetivo de tal reforma? Ou, ainda, o que se quer reformar? Se as respostas tangerem à transformação das instituições, da sociedade, do governo como um todo, sinceramente, não vejo mudança alguma. Isso porque, ao se pensar a reforma dessa maneira, objetiva-se a mutação estrutural, não a essencial. Tomando como base a mesma filosofia aristotélica, numa compreensão ousada até, esse modelo de reforma evoca uma recolocação dos acidentes, mas nada muda à substância. Exemplificando: é como se eu me propusesse a reformar uma casa que está alugada. Peço licença ao inquilino, modifico a estrutura da casa, pinto, troco pisos, etc. e, ao final, volto o mesmo morador. Resultado: ele aprende a viver na nova casa.

A situação do Brasil não se modificará enquanto o cidadão brasileiro não realizar uma reforma. Sim, uma reforma profunda e necessária; uma reforma da consciência. Consciência que é requisito essencial para garantia da liberdade (autodeterminação, independência e autonomia). Consciência que só se forma na lógica coletiva; que se aprimora com a compreensão, racional, do que é ética e moral. Juntas, elas promovem ao humano o acesso às respostas cotidianas como quero, posso e devo, primando pelo equilíbrio necessário ao ideário social. Assim se forma a verdadeira liberdade: autonomia (capacidade de saber o que quero, com consciência), independência (capacidade de saber o que posso, com consciência) e autonomia (capacidade de saber o que devo, com consciência).

O maior problema de se alcançar tal modelo de reforma é a ganância do humano. Se houvesse, verdadeiramente, uma preocupação coletiva, as reformas não estariam somente nas reivindicações. Entretanto, a lógica de uma grande parte daqueles que exigem reforma não se baseia em interesses comuns, mas parte do princípio de que houve uma lesão, um dano, uma insatisfação, que normalmente é pessoal; é um entendimento particular. Tal comportamento coloca as manifestações no campo da acefalia, do egoísmo, da individualidade. A necessidade de reforma existe, é iminente; mas a reforma da consciência dos brasileiros, que deixaram a política chegar aonde chegou, e agora correm atrás do prejuízo, normalmente, sem assumir sua parcela de culpa, mas somente “apontando nomes” e “falando dedos”.

(*) Filósofo e professor universitário
oivasavio@gmail.com

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