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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Dalvas de Oliveira

Para Milton Miranda 

As mulheres cantavam suas músicas, fazendo das letras suas biografias 

A voz ecoa do disco de acetato, arranhado, que os avós guardam com carinho. Exala do rádio art déco de nossos pais, intacto na recordação. Salta a janela, alcança a calçada e se insere no assobio do cara que passa pela rua com a mão no bolso da calça de linho.

A música dela está em tudo; nas boates de Copacabana, com seus casais sincopadamente enamorados; uma necessidade da época. É quase palpável nos móveis envernizados lá de casa.

Ó de casa! Ninguém responde.

Lá dentro, o cantor de banheiro não se inibe de apresentar-se a si próprio, e faz do som do chuveiro a sua orquestra. Certamente não é Dalva. A voz é de quem não tem pressa de sair do banho e se ensaboa com os versos da cantora, que atinge o brasileiro na sua mais limpa intimidade.

Longe dali, agora, sim, é cantora (Dalva), rumo ao trabalho, deixando o apartamento à meia-luz, para se expor aos sorrisos, lágrimas, autógrafos, fotógrafos que a carreira exige.

A mulher (Dalva) fica naquilo que chamam de “lar-doce-lar”, diluída na luz do abajur lilás.

Ao fundo, a letra com que a agulha fere o disco:

Esse amor quase tragédia/ Que me fez um grande mal/ Felizmente esta comédia/ Vai chegando ao seu final.

E quando as culpas se digladiam e os confrontos amorosos se alfinetam, vem a capacidade de se entregar:

Errei sim,/ Manchei o teu nome,/ Mas foste tu mesmo o culpado.

Mas foste tu, mesmo, momento sublime, o culpado de imaginarmos as duas Dalvas de Oliveira, de saias justas, braços dados, requebrados, o coração a largo, antigas amigas.

Ao vê-las à Beira-Mar, o Cristo Redentor lhes estende a mão, com o pedindo para que cantem sua canção preferida: Ave Maria no Morro (o morro, ali a seus pés). É aí que a Estrela Dalva no céu desponta, com as canções ufanistas do Estado Novo, no seu estado novo, nos olhos verdes da mulata que, ciente de si, não sente um pingo de vergonha de dizer com afeto a seus desafetos:

Bandeira branca, amor./ Não posso mais,/ Pela saudade que me invade/ Eu peço paz!

É mais que a deposição das armas, ao fim das batalhas amorosas. É um hino de destemida paz, que inunda o Brasil.

Agora, por favor, silêncio. Na imagem inventiva da rua, calada noite, a porta aberta da casa, para que, secretamente, Dalva possa entrar, tomar um copo d’água da talha, tirar os sapatos, as meias de seda e as ligas, recostar-se na cama, cansada, descansar de tudo que lhe tem acontecido.

Ouçam só o solfejo do sono... Na manhã seguinte, as janelas se abrem como o sol, as sombrinhas, igrejas, escolas, lojas, as agências bancárias. É quando todos, então, ficam a par do segredo guardado, entre as quatro paredes de nosso conhecimento, e que nada menos é que o prazer de ouvir Dalva de Oliveira, no dia de seu centenário. Pois é ela quem permeia, nestes melindres de maio, as nossas emancipadas emoções musicais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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