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Uberaba, 21 de outubro de 2019 -

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Entre Miterrand e Bolsonaro: a diferença

A resposta que Jair Bolsonaro deu aos estudantes brasileiros em Dallas, Texas, nos leva de volta à crise enfrentada pelo presidente François Miterrand quando da comemoração dos 200 anos da Queda da Bastilha. 

Tal como sucede no momento, o descontentamento com a política educacional instituída naquela nação alastrou-se por todas as províncias, atingindo o seu ápice na solenidade de exaltação da Revolução Francesa, no desfile presidido por Miterrand na manhã do dia 4/7/1989, na Champs-Élysées.

Naquela efeméride, ao contrário do que sucedeu no Brasil, não houve qualquer repressão aos inconformados com a política socialista, embora hajam sido vaiados tanto o presidente em exercício, como seu futuro sucessor, Jacques Chirac, então prefeito de Paris.

A réplica de Miterrand aos jovens estudantes, que tudo fizeram para constrangê-lo, não assumiu as proporções burlescas adotadas por Bolsonaro, qualificando de “imbecis e idiotas úteis” os que denunciaram o bloqueio de verbas que afetam as instituições federais de ensino.

Extinguir as atividades de pesquisa, repelir a política da assistência estudantil, nos dias atuais, importa em expor um governo recém-saído das urnas aos riscos dessa intolerância, que pode ser o início de um grande movimento nacional contra uma administração que somava as esperanças do País.

A linguagem de Bolsonaro, acrescida ao seu desafio aos estudantes “que não sabem nada”, além de grosseira, tem a comprometer o fato de ter sido divulgada numa região conservadora do maior país do mundo.

Certo, entretanto, a identidade de Bolsonaro com Donald Trump, cujos métodos pretende implantar no Brasil. Assim que empossado, Trump se dispôs a abrir guerra contra os imigrantes, ao mesmo tempo em que prestigiou a fabricação de armas, inobstante as seguidas tragédias ocorridas nos Estados Unidos, especialmente nas escolas.

A exemplo de Bolsonaro, Trump também desclassificou a juventude corajosa que se posicionou em frente ao Congresso, repelindo bravamente a ação policial iminente, conclamando o povo a retomar a defesa dos princípios conferidos pela Constituição de Filadélfia.

Daí a semelhança existente entre o mandatário brasileiro no tratamento dispensado aos insurgentes e o procedimento de Trump, logo após a sua posse. Se o presidente dos Estados Unidos, imagem do capitalismo, pode se dar ao luxo de promover arroubos diários, o mesmo não é permitido a Bolsonaro, que depende do Congresso Nacional para que as reformas prometidas surtam êxito, mesmo com sacrifícios que possam trazer aos seus destinatários.

As palavras desataviadas em Dallas estão sintonizadas com o pronunciamento do seu segundo ministro da Educação, que foi compelido a comparecer à Câmara dos Deputados, por uma expressiva maioria (307 a 82) formada de parlamentares vinculados ao PSL.

Ao mencionar expressamente as três universidades atingidas pelas medidas drásticas impostas, o novo titular da educação deixou claro que a constrição havida tinha por finalidade impedir que a balbúrdia subsistisse, frustrando os planos que o novo governo pretende implantar.

Como de outras vezes, o vice-presidente Hamilton Mourão assumiu a posição de “bombeiro”, optando em sustentar que os recursos da área educacional não estavam sendo extintos, tratando, quando muito, de uma providência transitória.

Há, pois, diferença flagrante entre a atuação de François Miterrand, como presidente em dois mandatos, e a conduta de Bolsonaro no curto espaço marcado por sucessivos fatos que colocam a nação em permanente expectativa.

Enquanto Miterrand aboliu a pena de morte, o capitão reformado, seguindo orientação do seu guru filosófico Olavo de Carvalho, prega o uso indiscriminado de armas como forma de estimular a ação das autoridades, de modo a impedir que medre a insegurança reinante em todos os estados da Federação.

Miterrand criou a política do preço único para livros, inaugurando o Musée d’Orsay, o Instituto do Mundo Árabe, a pirâmide de Louvre e a pedra fundamental da Biblioteca Nacional da França. Após perder a maioria legislativa nos pleitos de 1986 a 1993, viu-se obrigado a convocar líderes da oposição para os cargos de primeiro-ministro, o que ocorreu convivendo respeitosamente com os governos de direita, exercidos por Jacques Chirac e Édouard Balladur.

Esta grandeza de espírito é suficiente para justificar a sua presença no Pantheon, onde se encontra reverenciado ao lado dos heróis nacionais do seu país.

Vinte e três anos após a sua morte, a França deplora a sua perda, por considerá-lo o último grande presidente mandatário de sua história, que marcou presença tanto pela coragem, como pela consciência que nutria na relevância do mandato que o povo lhe confiara. 

(*) Advogado, conselheiro nato da OAB e diretor do IAB

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