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Uberaba, 17 de maio de 2022 -

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A nostalgia da Borboleta Atíria

Há coisas que compartilhamos que, de tão desimportantes, não ocupam nossa atenção mais do que de passagem. Estamos acostumados a encontrar pessoas que tiveram a mesma professora primária, ou comeram um banana split no mesmo barzinho que já não existe, ou dançaram ao som da mesma banda local (onde será que anda?). Essas vivências nem sempre mencionadas percolam nossa comunicação e desaparecem no mundo das coisas familiares.

Mas a vida acontece e, um dia, estamos cercados de pessoas que não falam como nós, nem têm as mesmas referências. Não resistimos ao impulso muito humano de nos conectarmos; há gente boa em todo lugar. Porém, vivendo fora há muitos anos, um dia vi-me muito nostálgica de um livro de que já mal me lembrava. Surgiu numa conversa qualquer e eu mencionei “O Caso da Borboleta Atíria”, leitura escolar obrigatória da minha geração. E me olharam com “cara de lâmpada”. “Quem?” “Deixa pra lá.” A conversa continuou, a amizade evoluiu, mas qualquer coisa se partiu naquele dia. Como é possível que alguém da minha idade não saiba quem é a Borboleta Atíria?

Por isso, vir para Uberaba é voltar para um lugar e entrar em um estado. As ruas familiares estão cá, (embora o sentido de tráfego nem sempre seja o mesmo), assim como os lugares, ainda que condicionados, que ainda vivemos a pandemia. Onde o pão de queijo nunca é ruim, embora uns sejam melhores que outros. E qualquer coisa com queijo será melhor do que sem queijo. O café é mineiro, assim sendo, obviamente, o melhor do mundo. A coxinha é imbatível e, além disso, quem a faz é meu ex-professor da engenharia. Há palmito pra escolher, bolo de fubá com queijo e sem queijo, e picolé de Romeu e Julieta.

Acabei de chegar, assim ainda não li o exemplar de “Dom Casmurro” da coleção Machado de Assis do meu pai, mas já chego lá. Eu tenho um “Dom Casmurro”, tão perfeito quanto o daqui. Machado é Machado. Mas lá, as pessoas não sabem quem é a Borboleta Atíria. E, por isso, é outro livro que leio aqui.

P.S.: Só uma observação: realmente não era necessária uma recepção tão calorosa como esta.

Ana Maria Leal Salvador Vilanova é engenheira civil, cinéfila, ailurófila, faz caminhada nórdica e atualmente desfruta férias em Uberaba.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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