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Uberaba, 22 de maio de 2022 -

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O melhor tempero

Cozinheiros sempre ficam na expectativa, imaginando se sua comida agradará aos comensais. (Que o digam os participantes de programas da moda, no estilo MasterChef.) Por isso mesmo, capricham no forno e fogão, nas saladas e frios, bem como na apresentação dos pratos. E usam e abusam da técnica e criatividade.

Mais ainda, capricham no tempero: pimenta, coentro, páprica, curry, cominho, gengibre, manjericão, orégano, alecrim, louro, açafrão, tomilho, salsa, cravo, canela... tudo para realçar o sabor dos alimentos. (Para meu gosto muito particular, se não tiver pimentão naqueles pratos cheirosos e bem apresentados, eu provo e aprovo tudo, de bom grado. Questão de paladar, uai. E gosto... não se discute.)

E o almoço está servido. Pratos coloridos, com aquele cheirinho bom, parecendo realmente apetitosos. (Menos os que têm pimentão.) Mas, quanto a um dos comensais, os incríveis pratos não lhe apetecem: ele coloca só um bocadinho de comida no prato, prepara garfadas tímidas e faz considerável esforço para engolir a minguada comida que põe na boca.

A cozinheira, que observa tudo muito atenta, fica ressabiada e indaga, discretamente: “Não gostou da comida? Não apreciou meu tempero?”.

Apesar da discrição daquela especialista da cozinha, os demais convidados percebem a cena. Logo, param de mastigar. Silêncio absoluto. Todos se entreolham. Aguardam a resposta.

O comensal percebe tudo e faz força para engolir o pouco que colocou na boca – do pouco que colocou no prato. A voz lhe sai acanhada: “Me perdoe... A comida está deliciosa. O problema... não é a comida... O problema... sou eu... Comi antes de vir, por isso estou... sem... fome”.

Ah! Tudo explicado. Faltou mesmo algo indispensável para que aquele comensal pudesse apreciar a magnífica comida, que todos os demais convivas amaram. Não há o que discutir: o melhor de todos os temperos, aquele que deixa a comida mais saborosa, é... a fome. É a fome, precisamente, que tem o poder de fazer até a comida mais trivial do mundo virar um banquete. Nenhuma especiaria de nenhum lugar do mundo conseguiu proeza maior que a da fome!

Depois dessa, a cozinheira dormiu sossegada, afinal, graças ao seu empenho e esmero na cozinha, seus pratos foram justamente elogiados.

E fica a sugestão para todo cozinheiro dedicado: se a comida foi feita com empenho e capricho, e alguém à mesa parece insatisfeito, é conveniente ir direto ao ponto: “Foi convidado para um almoço e veio de barriga cheia? Bonito, hein?!”.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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