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Uberaba, 04 de dezembro de 2021 -

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Celi Camargo

Aterrando o passado

- Véi , na boa, estão aterrando a piscina da minha escola!

A frase carregada de indignação partiu da minha filha assim que a peguei na saída do Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais. Naquele momento não me atinei para o fato, pois logo outros assuntos fizeram parte de nosso diálogo durante o trajeto de retorno para casa.

O assunto só voltou a povoar meus pensamentos quando lendo o jornal no trabalho tomei conta de que a piscina do Colégio Tiradentes seria aterrada por falta de recursos financeiros para a manutenção e tratamento da água. A reportagem, de uma ex- aluna minha, Geórgia Santos, informava todos os detalhes da decisão que colocava fim em uma rica paisagem, cenário do passado de muitos de nós.

Enquanto lia a reportagem um filme passava pela minha cabeça. Foi na beira daquela piscina que nós passamos os melhores anos de nossas vidas, desde a primeira infância à adolescência. A construção do complexo esportivo do 4º Batalhão envolveu o trabalho de nossos pais. Lembro-me, como se fosse hoje, do meu pai, à época Tenente da PM escolhendo os azulejos que iriam revestir a piscina.

Éramos jovens que fazíamos da piscina não só um momento de lazer ou de prática esportiva, mas também um ponto de convergência para as nossas confraternizações. Jovens, filhos de militares, aboletávamos as margens para longas conversas sobre a vida, sobre a amizade, a paixão. Muitos namoros nasceram ali e resultaram em sólidos casamentos.

Quantas competições ela sediou. Quantas medalhas conseguimos ganhar ali. Atravessávamos os 25 metros da piscina em fortes braçadas como se além de vencermos as águas, reuníssemos forças para vencer a vida. E vencemos. Somos tantos, frutos amadurecidos no lazer dessa piscina, que hoje estamos contribuindo com a sociedade em diferentes setores. Somos professores, médicos, advogados, dentistas, engenheiros, arquitetos, militares, bancários, empresários dentre tantos que tinham no extinto “Centro Esportivo Tiradentes” o ponto auge de nossa juventude. Uma juventude sadia, distante de vícios e drogas.

Tempos bons aqueles. As lembranças permanecem vivas enquanto o Estado, ao contrário de incentivar a continuidade de práticas saudáveis, prefere colocar, literalmente, uma pá de cal em uma área que poderia servir para revelar novos “Cielos”. Sobre a piscina coberta e silenciada por terra e concreto desfilarão jovens cuja natação fará parte apenas de um jogo virtual em suas tecnológicas máquinas individualizantes.

Em tempos em que o esporte surge como alternativa para libertar os jovens da perversidade das drogas e outros vícios, o Colégio Tiradentes e a PM caminham na contramão. Será que se nós nos organizássemos, buscássemos parcerias com o poder municipal, Instituições de Ensino Superior, iniciativa privada não poderíamos desenvolver um projeto que mantivesse viva a piscina e beneficiassem os jovens que querem seguir esse esporte?

“Véi”, na boa, vamos fazer alguma coisa!



(*) J
ornalista, mestre em Educação, diretora dos cursos de Jornalismo e de Publicidade da Uniube
celi.camargo@uniube.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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