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Uberaba, 04 de dezembro de 2021 -

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Celi Camargo

Falta preparo

Detesto quando paro no posto de gasolina e, ao esperar pacientemente na fila, o frentista pula a minha vez para atender uma moça nova e bonita que acaba de estacionar na bomba ao lado; ou então quando ele vai atender a um amigo que acaba de chegar com pressa. Bom, pode parecer uma troca justa para uns se considerarmos que meu carro não é tão novo, que eu também não sou tão nova e nem tampouco tão bela. Mas vamos aos fatos. Em nenhum momento passa na cabeça desse frentista que, ao fazer tal escolha, ele pode estar contribuindo, guardadas as devidas proporções, com a discriminação e até com a corrupção, já que o conceito desta última é obter vantagem própria em detrimento de alguém ou de alguma coisa.
Vamos colocar este frentista numa fila em um posto de saúde qualquer. Se ele está lá é porque não está bem, precisa de atendimento e não possui dinheiro para pagar uma assistência particular. Pois bem. Imagine se o médico do postinho vê uma moça bonita que acabou de chegar buscando o mesmo atendimento e ele, o doutor, prontamente passa a jovem, de pernas torneadas e carinha de Xuxa, na frente. Com certeza, este frentista vai chiar e reclamar os seus direitos.
 
Nos dois casos, ambos profissionais estão errados, pois não se deve privilegiar nada, nem ninguém, buscando apenas obter benefício próprio. É preciso ter respeito. E para se ter este respeito é preciso ter preparo. Esta preparação advém de uma boa educação familiar, reforçada nos bancos escolares. Os cursos específicos de treinamentos também ajudam no preparo do profissional para lidar com o seu público. Percebo a falta de preparo em várias profissões.
Ultimamente, em Uberaba, os registros de acidentes de trânsito apontam o envolvimento de viaturas do serviço municipal de saúde, o SAMU, e do Corpo de Bombeiros. Não raro, esses casos têm desfechos trágicos. Ora, quantas vezes estamos no trânsito e, aturdidos, corremos para abrir espaço para uma dessas viaturas que, em alta velocidade, corre para salvar vidas? Não discordo da pressa e nem do papel dessas duas instituições, mas, vou além, na discussão e começo por analisar a cultura de nossa cidade.
 
Uberaba é uma cidade de porte médio, cujas distâncias entre uma extremidade e outra vão consumir, em média, cerca de 15 minutos para serem percorridas (isto contando com os semáforos). Somam-se a isto os carros tunados (tunning) dos jovens, cujo som faz sacudir o Maracanã. E, por último, a própria característica geográfica da cidade em que o centro fica em uma baixada, impedindo que, quem vem dos bairros, morro abaixo, não perceba o que está acontecendo na avenida.
Pois bem, considerando tudo isso, fico me indagando: será que não daria para prestar socorro em 15 minutos, sem colocar mais vidas em risco? Passar nos sinais vermelhos com a sirene ligada é a garantia e a certificação de um serviço bem feito e seguro? E quando o motoqueiro vem descendo morro abaixo - o capacete tampando os ouvidos e ainda com um cara do carro ao lado com a música no último volume sacudindo tudo à sua volta - e depara-se com o sinal verde para ele passar? Será que este motoqueiro, muitas vezes preocupado em cumprir a tarefa determinada pelo patrão a tempo e hora, vai ter tempo para pensar que uma viatura vai cruzar o sinal vermelho?
 
Afinal, para salvar uma ou mais vidas é preciso acabar com outras? Estou com medo de andar nas ruas. Reconheço que os motoristas que se envolveram ou que estão à frente dessas viaturas têm as melhores das intenções: querem ser ágeis, prestativos e autores dos atos heróicos que envolvem esses salvamentos. Mas falta preparo.
É preciso saber que as imagens que vemos em filmes ou novelas, de viaturas voando pelos ares, passando ilesas por todos os obstáculos e deixando para trás um verdadeiro caos (mas, sem morte) fazem parte de uma ficção. É preciso encontrar uma saída para que não aumente o quadro de vítimas fatais nos acidentes envolvendo viaturas, cuja missão é a de salvar vidas. É preciso preparar essa gente, pois o saldo disso tudo é um sofrimento mútuo: de um lado, os familiares que sofrem a dor de perder um ente querido e, do outro, a dor de quem causou o acidente e que só queria, ao deixar a família em casa pela manhã, ser um profissional exemplar, naquele dia de trabalho.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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