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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Lya Luft e suas singularidades

Nesse apagar das luzes de 2021, uma notícia nos atingiu como um raio fulminante. Como assim??? Lya Luft morre aos 83 anos em Porto Alegre. Eu e milhares de seus leitores nos sentimos repentinamente órfãos. Um grande vazio tomou conta de nossas vidas.
Tomei conhecimento desta excepcional escritora em 2004, quando minha talentosa aluna de piano Carolina Loes Schroden, também descendente de alemães, presenteou-me com o livro de crônicas “Pensar é transgredir”, constando uma afetuosa dedicatória onde registrou: “(...) Agradeço a Deus por ter te colocado na minha vida”. Foi paixão à primeira leitura! Adorei o livro e me identifiquei totalmente com a escrita sugestiva e envolvente da gaúcha Lya Luft. Plagiando Carolina, posso afirmar de peito aberto: “Obrigada Carol, por ter colocado Lya Luft em minha vida”! A partir deste livro, adquiri diversos outros títulos, como: “Perdas e Ganhos” (2003); “O tempo é um rio que corre” (2013); “Paisagem Brasileira” (2015); “A casa inventada” (2017); “As Coisas Humanas” (2020).
A palavra, na sua escrita, adquire um sentido peculiar, ou seja, tudo o que costuma converter a linguagem de um escritor em linguagem única, original e inconfundível. Ler é sonhar pela mão de outrem. Já dizia Rubem Alves: “Toda leitura é uma viagem por um mundo desconhecido. Para se entender um livro, a primeira condição é sair do nosso mundo. Vamos desembarcar do nosso mundo e entrar no mundo da autora. Vamos aprender a sua língua”. E, segundo Clarice Lispector: “Ela pensava simples e claro. Pensava sensações intraduzíveis. Nenhum pensamento era extraordinário, as palavras é que o seriam”. Lya Luft fala diretamente ao leitor, passando por memórias, personagens reais, angústias, amores, lutos, saudades, descobertas e, sobretudo, sobre o fluxo da vida.
A partir de 1964, a escritora gaúcha iniciou sua robusta produção, que abrange 23 livros, escritos em variados gêneros literários. Começou editando poemas e, na sequência, vieram romances, contos, crônicas, ensaios e até literatura infantil. Seu livro “O Rio do Meio” (1996) recebeu o 1º Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, como melhor obra de ficção do ano. Inesperadamente, seu livro de contos “Perdas e Ganhos”, publicado em 2003, vendeu mais de um milhão de exemplares no Brasil, sem falar nas traduções que circularam em outros países, tornando-se seu maior sucesso editorial. Trata-se de uma autobiografia, com relatos de situações de dor e alegrias. Fiel ao seu estilo, a escritora mantém seu olhar sempre atento sobre a passagem do tempo, as relações humanas, o valor da vida – temas e inquietações que são recorrentes em suas obras. Em 2013, “O tigre na sombra”, por sua vez, foi vencedor do prêmio da Academia Brasileira de Letras.
Lya Fett Luft (1938-2021) nasceu em Santa Cruz do Sul, cidade gaúcha de colonização alemã, filha do advogado Arthur Germano Fett. Foi uma jovem inteligente, contestadora e rebelde, que desde criança revelou-se uma ávida leitora, sobretudo da biblioteca de seu pai, onde familiarizou-se muito cedo com os clássicos. Aos onze anos já recitava poemas de Göethe e Schiller.
Diplomou-se em Pedagogia e em Letras Anglo-Germânicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde obteve o grau de mestra em Linguística em 1975. Passou a trabalhar como tradutora de livros em alemão e inglês, traduzindo para o português mais de cem livros, entre os quais se destacam obras de: Wirginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Como tradutora, em 2021 fez jus ao prêmio “União Latina” de melhor tradução técnica e científica, pela obra “Lete: Arte e crítica do esquecimento”, de Harald Weinrich.
Seu mestrado em Literatura Brasileira foi concluído em 1978, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Em suas declarações, colhemos alguns pensamentos sobre sua visão do mundo: “Sou fascinada pelo lado complicado da vida. A minha literatura nunca vai ser: “Aí se casaram e foram felizes para sempre”. Ou ainda: “Gosto mais do sol do que da sombra. Mas a sombra me interessa mais. Tenho um olho otimista que vive (e convive) e se volta para a beleza, a alegria, a decência e a compaixão. Mas meu olho pensativo, o outro, namora a sombra, espia em frestas”.
A escritora gaúcha morreu em sua residência no dia 30 de dezembro de 2021, vítima de um melanoma metastático. Uma espécie de câncer de pele bastante agressivo, que se espalhou rapidamente para outros órgãos do corpo.
Morta, Lya Luft parece ainda maior do que viva. Toda a sabedoria da vida, que constituiu seu maior cabedal ao longo dos anos, aliou-se agora ao profundo e insondável da morte. Sua obra, com certeza, enriqueceu o acervo literário do país para a posteridade. A intelectualidade brasileira perdeu uma de suas melhores escritoras.


Olga Maria Frange de Oliveira
Regente do Coral Artístico Uberabense, autora do livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba”, ex-diretora-geral da Fundação Cultural de Uberaba, eleita para a cadeira nº 15 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
 

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