JM Online

Jornal da Manhã 49 anos

Uberaba, 16 de maio de 2022 -

BUSCAR EM TODAS AS SEÇÕES BUSCAR
Buscar

Articulistas.

Outros Articulistas

Fake News do Passado

O capitão Abdias Ribeiro dos Santos (1882-1961) deixou seu nome inscrito no primeiro escalão da música em Uberaba como virtuose da flauta, flautim, clarineta e trombone. Era músico de sentimento e talento, espírito alegre e comunicativo, perfeitamente integrado no meio musical uberabense, onde se tornou um compositor inspirado e respeitado maestro.

Admirado por seus contemporâneos, demonstrou ser um empreendedor nato ao criar a banda de música Santa Cecília, que deixou seu nome entre as melhores corporações que aqui surgiram no início do século XX, abrilhantando reuniões em Uberaba e nas cidades vizinhas de 1904 até 1911, inclusive apresentando-se na capital do Estado. Como se não bastasse, tornou-se respeitado empresário no ramo cinematográfico e de diversões em geral. Capitão da Guarda Nacional, Abdias atuou também como delegado em Uberaba na segunda década do século XX. A partir de 1919, ingressou no funcionalismo público, passando a exercer o cargo de Oficial do Registro Civil em Uberabinha e, posteriormente, em Monte Santo de Minas, onde passou a residir a partir de 1925.

Em setembro de 1956, chegaram à nossa cidade notícias dando conta da morte de Abdias, ocorrida em Monte Santo. A notícia correu de boca em boca e dois dos nossos melhores cronistas musicais escreveram sobre esta lamentável perda: Renato Frateschi, em sua coluna Musicália, do Lavoura e Comércio, e Carlito do Nascimento, articulista do Jornal de Uberaba, filho do maestro Carlos Maria do Nascimento. A coluna de Renato Frateschi foi publicada nesse dia com o título “Funerália”, que, nessa oportunidade, homenageou três músicos que faleceram neste ano de 1956, em curto espaço de tempo: Carlos Maria do Nascimento, Loreto Conti e Abdias Ribeiro dos Santos. Eis o texto do maestro Frateschi, publicado em 2 de outubro de 1956: “Faleceu o estimado amigo, Abdias Ribeiro dos Santos, cuja infausta notícia (é quase inacreditável) veio a nosso conhecimento apenas há poucos dias, não nos sendo possível sequer apresentar condolências à família enlutada, por não possuirmos o respectivo endereço (em Monte Santo). Musicista notável que era, criou a Banda de Música “Santa Cecília”, em 1904, à qual dedicou todo o ardor e inteligência até guindá-la a um alto grau de perfectibilidade, para o que não hesitou em acrescentar aos recursos de que já dispunha, outros mais prestantes elementos do vizinho Estado paulista, confiando em seguida, em 1908, a corporação à regência do escritor destas linhas, o qual se manteve nessa função até que, por motivos intimamente vantajosos, retirou-se. Abdias partiu de Uberaba, indo estabelecer-se em Monte Santo, onde assumiu o posto de Oficial do Registro Civil daquela cidade, cargo em que a morte veio surpreendê-lo”.

Por sua vez, Carlito Nascimento, sob o pseudônimo SOLRAC (Carlos, ao contrário), escreveu uma de suas melhores crônicas: “Talvez por capricho do destino, perde a vida poucos dias depois do meu pai, o maestro Abdias dos Santos, diretor da Banda Santa Cecília. Ele e meu pai eram rivais pelas bandas de música de seus dias de mocidade, mas irmãos de ideal. Inimigos fidalgais pela primazia, mas amigos incomparáveis pela arte. Juntos lutaram e juntos encerraram as suas atividades musicais às bandas. E agora, na mesma época, em pleno festejo do centenário de Uberaba, ambos deixaram de viver, como se apenas esperassem esse acontecimento para oferecerem à sua Uberaba, em holocausto, a própria vida”.

Pois bem, para surpresa de todos, o Lavoura e Comércio de 13 de outubro de 1956 estampou uma matéria intitulada: “Está bem vivo o maestro Abdias Ribeiro dos Santos”. Eis o teor do texto publicado: “Uma série de mal-entendidos e equívocos involuntários por parte de cronistas de nossos jornais tem anunciado como falecido o apreciado e veterano maestro Abdias Ribeiro dos Santos, que durante muitos anos morou em Uberaba e aqui integrava um grupo selecionado de amantes da boa música. (...) Hoje, em mãos do sr. José França, proprietário nesta cidade, vimos um telegrama da família do distinto maestro em que se pede seja desmentida esta notícia, que tanta consternação causara no círculo de amizades do sr. Abdias. É o que aqui fazemos com muito prazer”.

O que causa estranheza é o fato de nenhum dos articulistas mencionados terem vindo a público para se desculparem pelo desencontro de informações. Renato Frateschi e Carlito não se pronunciaram a respeito, mantendo-se indiferentes às notícias referentes à falsa comunicação da morte de Abdias. Acredito que ambos se sentiram humilhados por terem sido considerados responsáveis por dar crédito a notícias infundadas, ou seja, segundo o Lavoura, o erro era dos cronistas, e não do jornal.

Anos mais tarde, em 16 de fevereiro de 1961, o Lavoura e Comércio publicou a nota de falecimento do capitão Abdias Ribeiro dos Santos em Monte Santo, quando este era já um Oficial do Registro Civil aposentado. A nota foi escrita por um jornalista do Lavoura que não assinou a matéria, embora Renato Frateschi ainda estivesse vivo e continuasse escrevendo sua coluna musical no tradicional vespertino uberabense. Quando tive conhecimento da verdadeira data da morte do conhecido músico, ainda teria tempo de alterar a data no livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba”, que estava sendo encaminhado à gráfica paulista. Refleti muito e decidi manter a data que consta em todas as publicações a respeito de Abdias em nossa Uberaba. Não quis afrontar o velho Frateschi. Dessa forma, as homenagens póstumas dos nossos dois principais cronistas da música no século passado acabaram acontecendo quase cinco anos antes do verdadeiro desenlace. Era como se, após a falsa comunicação, ambos dissessem à posteridade: “Já prestamos nossa homenagem ao grande mestre que tantas glórias trouxe para sua terra natal e agora nos solidarizamos à família enlutada, e aguardamos com pesar que outros companheiros da imprensa venham a público se manifestar em nome de Uberaba nesta triste data”.

De qualquer maneira, deixo aqui o registro correto da morte de um dos músicos mais respeitados e atuantes no cenário artístico de nossa Princesa do Sertão, do final do século XIX até 1925, quando Abdias partiu para Monte Santo para viver a derradeira etapa de sua fulgurante vida.

 

 

Olga Maria Frange de Oliveira

Professora de piano, regente do Coral Artístico Uberabense, autora do livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba e ex-Diretora Geral da Fundação Cultural de Uberaba

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
DESENVOLVIDO POR Companhia da Mídia