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Uberaba, 21 de outubro de 2021 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Giocondo Garibaldi Di Martino

Hoje vou me reportar a mais um músico da família Di Martino, um núcleo familiar que deu a Uberaba nada menos que quatro musicistas da melhor qualidade. Natural de Uberaba, onde nasceu em 14 de setembro de 1897, Giocondo Garibaldi pertencia a uma tradicional família italiana aqui domiciliada em 1895. Seus pais, o sr. Antônio Di Martino, musicista e industrial estabelecido nesta cidade, e a sra. Solamina De La Barba Di Martino, eram figuras queridas e respeitáveis da Uberaba de outrora.

Seu pai e seus irmãos, Rigoletto e Ernani, também eram músicos. Todos tocavam instrumentos de sopro majoritariamente da família dos metais: bombardino, clarineta, trompa, trompete e pistom. Esses instrumentos são fundamentais nas bandas musicais, tão em voga no cenário musical daquele período.

Garibaldi era dezesseis anos mais novo que seu irmão Rigoletto, sendo que, dos cinco filhos, apenas ele e uma irmã de nome “Aída” nasceram em Uberaba. Desde muito jovem revelou acentuada vocação para a música, influenciado pelo ambiente familiar. Assim como seus irmãos, foi aluno do professor Eloy Bernardes Ferreira na “Artinha”, escola de iniciação musical fundada por este grande mestre com o objetivo de preparar músicos para atender à demanda das bandas musicais locais, sobretudo a União Uberabense.

Na sua carreira musical, Garibaldi foi um homem realizado. Tocou pistom por mais de vinte anos na banda “Ítalo-Brasileira”, fundada em 1911 por seu irmão Rigoletto, e que permaneceu em atividade até 1936, quando se extinguiu por falta de apoio da municipalidade. Participava também das orquestras locais, que o convidavam para tocar em eventos importantes, reforçando os grupos que atuavam nas orquestras dos maestros Renato Frateschi e João Villaça Junior. O auge dessas apresentações foi o ano de 1916, quando, em 16 de setembro, o maestro Renato Frateschi preparou um belo programa comemorativo do 20º aniversário da morte de Carlos Gomes, contando com a presença de doze de nossos melhores instrumentistas, incluindo os irmãos Rigoletto e Garibaldi Di Martino. No programa, trechos selecionados das óperas “Salvador Rosa” e “Colombo”, da lavra do ilustre compositor campineiro.

Outro momento que deixou saudades foi a festa musical dedicada à excelsa padroeira dos músicos – Santa Cecília, em 22 de novembro de 1916. Esta belíssima homenagem também aconteceu no palco do Cinema Triângulo, com uma orquestra formada por 15 músicos. Nesse dia, o tradicional quinteto do cinema contou com o acréscimo de mais dez músicos uberabenses de primeira linha, convidados para somar seus talentos numa grandiosa apresentação, sob a batuta do maestro Renato Frateschi. Os irmãos Rigoletto e Garibaldi mais uma vez estiveram presentes, assim como a pianista sra. Graziela Lopes Rosa. Trechos escolhidos das óperas “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, “A Força do Destino” e “Salvador Rosa”, de Carlos Gomes, foram muito aplaudidos pela seleta plateia que compareceu ao charmoso cinema da Rua do Comercio. Como se não bastasse, a “Ítalo-Brasileira” compareceu espontaneamente ao cinema e tocou a Marcha “Guarany”, num belo arranjo de Rigoletto Di Martino baseado em motivos extraídos desta que se tornou a mais famosa ópera deste grande compositor.

Demonstrando seu total envolvimento com a banda fundada por Rigoletto, o Lavoura e Comércio registra em 21 de fevereiro de 1926: “Seguiram ontem para São Paulo, a fim de adquirir instrumental para a reorganização da esplêndida banda de música Ítalo-Brasileira, os senhores Garibaldi Di Martino e Henrique Villaça”. Era motivo de regozijo, uma vez que a referida banda estava há três anos afastada do cenário musical uberabense, num recesso prolongado.

Após a extinção da Ítalo-Brasileira, em 1936, e a morte de Rigoletto Di Martino, em 1937, Giocondo Garibaldi resolveu transferir-se para a capital paulista. Em São Paulo, ele também se dedicou à música, como trompetista e regente de orquestras e conjuntos. Foi compositor e regente da Banda Musical da Sociedade Esportiva Palmeiras por muitos anos, time do coração da colônia italiana, onde ele também executava pistom. Exerceu essas funções até 1976, com o mesmo brilho e entusiasmo dos primeiros anos.

Dominava seus instrumentos, extraindo deles o som apurado e expressivo que caracteriza o grande intérprete. Como regente de orquestra, era um líder seguro, que sabia extrair dos músicos primorosas interpretações. Foi um artista na verdadeira acepção da palavra, por sua inspiração e os recursos técnicos de que era dotado, conquistando, pelo seu talento, uma posição de destaque no panorama musical de Uberaba e São Paulo.

Nunca deixou de visitar seus familiares em Uberaba e, em 1977, voltou definitivamente à terra natal para passar seus últimos anos ao lado dos sobrinhos, que queria como filhos.  Dois anos depois, veio a falecer perto dos seus entes queridos, cercado de carinho e solicitude, aos 81 anos de idade. O seu desaparecimento, na madrugada de 29 de março de 1979, causou consternação geral, pois era bastante estimado na cidade.

A câmara ardente foi armada na residência de seus sobrinhos, à Rua Arthur Machado, 150, de onde saiu o enterro, às 17h30, rumo à igreja de São Domingos, seguindo depois para o cemitério São João Batista, com grande acompanhamento. Seus irmãos, Marietta Di Martino Camanho, Rigoletto Di Martino, Ernani Di Martino e Aída Di Martino, já eram todos falecidos. Giocondo Garibaldi foi o último músico desta importante família que tanto dignificou a História da Música em Uberaba.

 

Olga Maria Frange de Oliveira

Professora de piano, regente do Coral Artístico Uberabense, autora do livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba” e ex-Diretora Geral da Fundação Cultural de Uberaba

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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