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Uberaba, 24 de outubro de 2021 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Meu adeus a Luiz Gonzaga

Esta foi uma semana especialmente triste para mim. Logo na segunda-feira pela manhã, dia 14 de junho, um dia nublado e friorento, recebi a notícia da morte de Luiz Gonzaga. Fiquei pensando em como o tempo corre em nossas vidas, sem que tenhamos controle sobre o dia de amanhã.

Conheci a família de Luiz Gonzaga em meados da década de 1960, quando minha família voltou a morar em Uberaba. Quis o destino que fôssemos vizinhos, na rua João Pinheiro.  O casal Luiz Gonzaga e Wânia, com suas três filhas, formavam um núcleo familiar harmonioso e feliz. Wânia sempre exerceu o ofício de manicure, com uma dedicação incomum às suas clientes. Sempre serena, prestativa e acolhedora. Um papo agradável e um serviço de primeira. Ela sempre gostou tanto do seu ofício que, mesmo depois de conquistar um excelente padrão de vida, jamais abandonou seu trabalho, pois as clientes eram, antes de mais nada, suas melhores amigas. As filhas, Adriana, Marília e Joyce, eram meninas estudiosas e muito bem-educadas. Foram minhas alunas de piano.

Gonzaga tornou-se profissional da área de comunicação a partir de 1953, atuando no rádio, na televisão e na imprensa escrita. Naquela época, a rivalidade entre as duas emissoras locais, “Difusora” (Luiz Gonzaga e os irmãos Farah e Jorge Zaidan) e “PRE-5” (Raul Jardim, Geraldo Barbosa e Netinho) era visível e bastante acirrada. Quem ganhava com isso era a cidade de Uberaba, que contava com duas excelentes emissoras. Apaixonado pelo futebol, tornou-se narrador excepcional e comentarista respeitado. Nas mesas de debate, ao lado de Farah Zaidan e Joel Lóes, a Difusora tinha uma audiência imbatível. Meu irmão não perdia um programa.

Ao longo de sua trajetória, aliou-se ao grupo de Ney Junqueira, ao lado de Geraldo Barbosa, na antiga “TV Uberaba”, orgulho dos uberabenses. Fui entrevistada algumas vezes em seu programa, onde esse grande profissional procurou louvar minhas qualidades, como só um verdadeiro amigo é capaz de fazer, uma vez que uma amizade cultivada pela admiração mútua ultrapassa o oportunismo do convívio.  Aliás, uma afeição extensiva, igualmente, aos meus irmãos.

Com sua facilidade de comunicar-se, acabou enveredando pela política. Era um homem de opiniões firmes na política local. Ocupou cargos relevantes na administração municipal, como quando assumiu a chefia de gabinete dos prefeitos Hugo Rodrigues da Cunha e Anderson Adauto, ou quando foi empossado presidente da Fundação Cultural de Uberaba.

Na imprensa escrita, foi colaborador dos jornais “O Triângulo” e “Correio Católico”, além de assumir a direção do “Cidade Hoje”, numa época em que Uberaba chegou a ter quatro jornais diários em circulação. Nossa cidade sempre gozou da fama de ser uma terra de intelectuais e conquistou justo respeito das cidades vizinhas por se destacar no Triângulo Mineiro nesse setor até os dias atuais.

Na maturidade, resolveu colocar no papel um pouco de sua vivência. Era um homem interessado pelo que viveu ou sentiu em redor de si e desejou fixar com palavras para a posteridade. Descobriu que conhecia profundamente sua terra natal, por ter participado ativamente de momentos importantes desta progressista cidade. O fato de militar no setor da comunicação possibilitou-lhe conhecer os meandros da evolução dessa terra abençoada e, sobretudo, de sua gente, com o olhar perspicaz de um grande contador de “causos”. Lançou três livros: “Memória, História & Causos de Uberaba Bão” (crônicas da cidade), “Causos de Nenê Mamá” (crônicas esportivas) e “Uberaba de todos nós – sem nós” (histórias de Uberaba e região). Homem de múltiplos talentos, tornou-se porta-voz das memórias de sua cidade, das situações engraçadas que presenciou, das “presepadas” vivenciadas nas rodas políticas, dos tipos populares que se perpetuaram na memória dos uberabenses. Acabou sendo considerado uma enciclopédia ambulante da História de Uberaba, cidade que ele conhecia como ninguém e amava incondicionalmente.

No ano passado, Luiz Gonzaga galgou mais um degrau, ingressando na Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Que sua obra literária perpetue sua contribuição ao resgate do riquíssimo passado de Uberaba. Nosso último encontro foi no lançamento do meu primeiro livro, na Sala Cecília Palmério, ao lado de sua esposa. Estava feliz e animado com o resgate do passado musical de nossa Princesa do Sertão. Seu abraço foi um grande presente naquele dia tão especial para mim e, dessa forma, ele estará sempre presente em minhas melhores lembranças.

Porém, a sua família foi atingida em cheio por este vírus que vem assolando o mundo inteiro. Wânia perdeu seu companheiro de 54 anos de caminhada; eu perdi um grande amigo, e Uberaba perdeu um filho que fez de sua vida um hino de louvor a Uberaba. Infelizmente, a morte continua ferindo sentimentos e torturando inteligências.

Em seu último livro, Gonzaga afirmou: “Só uma coisa, para mim, ficou imutável: o incomensurável amor por Uberaba, minha cidade – Paixão!”.

Uberaba amanheceu mais pobre após esta despedida... Leve consigo nossas eternas saudades, meu amigo!

Olga Maria Frange de Oliveira - Professora de piano, regente do Coral Artístico Uberabense, autora do livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba” e ex-Diretora Geral da Fundação Cultural de Uberaba

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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