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Uberaba, 24 de outubro de 2021 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Uberaba na obra de Joubert de Carvalho

Antes de pesquisar a vida do grande compositor Joubert de Carvalho, algumas pessoas chegaram a me afirmar, categoricamente, que ele saíra de Uberaba ainda criança e nunca mais tinha voltado à nossa cidade. Isso me abalou profundamente, mas essa tristeza não durou muito, pois não foi isso que eu encontrei ao reconstruir seus passos e vasculhar seu glorioso passado. Resolvi, então, desfazer essa imagem totalmente equivocada a seu respeito e mostrar aos seus conterrâneos o amor incondicional que Joubert sempre dedicou à sua cidade natal.

Em 6 de março de 1900, nascia em Uberaba Joubert Gontijo de Carvalho, o segundo dos treze filhos do fazendeiro Tobias de Carvalho e de D. Francisca Gontijo de Carvalho. Aqui viveu sua infância e fez sua iniciação musical. Quando criança, seu pai tinha o hábito de levá-lo ao jardim público, no largo da Matriz, para assistir às deliciosas retretas de domingo executadas pelas bandas uberabenses: União Uberabense, Santa Cecília, Carlos Gomes e Ítalo-Brasileira. Aos 9 anos de idade, ganhou de seu pai um piano, e foi amor à primeira vista. Logo, o menino Joubert começou a tirar de ouvido os dobrados, marchas e valsas que ouvia na praça, pertinho de sua casa. Ao perceber a musicalidade do filho, o pai o levou para estudar na “Artinha”, escola de Eloy Bernardes Ferreira que revelou, ao longo de anos, um punhado de talentos que passaram a integrar as bandas locais.

Joubert pertencia a uma família extremamente musical. Era sobrinho de Dinorah de Carvalho, uma referência no cenário musical brasileiro; primo da grande pianista Nair de Carvalho Medeiros e irmão de Paulo Gontijo de Carvalho, inspirado compositor que atuava como pianista nas noites paulistanas.

Aos 12 anos, após o término do curso Primário no Colégio Marista Diocesano, sua família mudou-se para São Paulo, onde prosseguiu os estudos no Ginásio São Bento e ingressou no Conservatório Musical de São Paulo. Sua primeira composição musical foi escrita neste período, aos 12 anos de idade, e, a partir de então, nunca mais parou de compor.

Após a sua partida, só retornou a Uberaba sete anos depois, em fevereiro de 1918, antes de seguir para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil. Aos 22 anos escreveu seu primeiro grande sucesso, o foxtrote “O Príncipe”, que estourou nas paradas de sucesso e conquistou aplausos até no exterior, sobretudo em Paris.

Regressou à sua terra natal em janeiro de 1925 com seu irmão mais velho, Antônio, para curtir o período de férias escolares. Só voltaram à casa paterna em 12 de março. Nesse mesmo ano formou-se médico no Rio. No ano seguinte, em 1926, compôs duas obras em parceria com Sady Fonseca, pseudônimo de Pelópidas Fonseca, outro músico uberabense que, quando estudante de Direito no Rio, tocava piano em boates e no famoso Café Nice, sendo denominado “menino-maestro” por Noel Rosa. Dessa parceria surgiu o maxixe “Arrepiado” e o tango “Canção dos Mares”. Outras duas composições deram sequência a essa parceria em 1929: O maxixe “Coco Pelado” e a valsa “Conchinhas do Mar”. “Coco Pelado” foi interpretado pelo cantor Arthur Castro. Nesse mesmo ano, dedicou a peça “Último Tango”, com letra de Duque de Abramonte, ao amigo Abdias Ribeiro dos Santos, maestro em Uberaba da banda musical “União Santa Cecília”, que povoava suas felizes recordações da infância.

Em 1927, Joubert casou-se com a Srta. Elza Marques de Faria, filha do almirante Manoel Marques de Faria e D. Albertina. Em 1929, o casal vem passear em Uberaba, aqui permanecendo por todo o mês de fevereiro. Ele veio apresentar à esposa sua cidade natal e matar as saudades de sua irmã Júlia, a única que permaneceu em Uberaba e aqui constituiu família. Tudo isso indicava um laço ainda forte do jovem músico com nossa cidade. O orgulho de tê-lo como filho era visível em cada nota publicada na imprensa local. As notícias de suas conquistas chegavam rapidamente e tinham grande repercussão, apesar da distância.

Após um longo período sem visitar Uberaba, a vinda do festejado autor de “Maringá” foi noticiada no Lavoura e Comércio de 6 de fevereiro de 1952. Na ocasião, o Uberaba Tênis Clube preparou uma justa homenagem ao seu filho mais ilustre. Um baile no domingo, 10 de fevereiro, levou à sede social do clube um grande número de pessoas representativas da sociedade uberabense. Na oportunidade, o homenageado foi saudado pelo presidente do clube, Sr. Artur de Melo Teixeira, expressando o sentimento unânime da população uberabense, que tinha no homenageado um dos seus filhos mais queridos. Aqui, Joubert teria oportunidade de apresentar suas duas últimas composições: o “Hino do Uberaba Tênis Clube” e a valsa “Uberaba”. Provavelmente, é deste período o chorinho “Zebu na Ponta”. Um exemplar desse chorinho foi doado à ABCZ, pois Uberaba e o zebu são faces de uma mesma moeda. A estreia dessa peça ocorreu anos depois, pelas mãos da pianista uberabense Marilda de Carvalho Frange, em solenidade concorrida no salão nobre da ABCZ.

Em 20 de abril de 1956, o Lavoura e Comércio registrou que “Princesa do Sertão” era o título de uma nova e vitoriosa composição de Joubert de Carvalho, dedicada à sua cidade natal. Na letra, o compositor procura elevar as qualidades de Uberaba, o dinamismo de sua gente no plano econômico, principalmente na pecuária, e a posição de destaque que Uberaba ocupava no Brasil Central. A partitura foi editada pela “Irmãos Vitale”, em São Paulo, e deveria estar nas lojas locais dentro de poucos dias. Joubert de Carvalho era esperado em nossa cidade, onde participaria dos festejos do Centenário e seria alvo de expressivas homenagens de seus conterrâneos. Nesse mesmo ano, foi lançada a canção “Desquitada”, em parceria com o radialista Urbano Loes, uberabense radicado no Rio e locutor da Rádio Mayrink Veiga, PRE-9. Em 1944, Urbano organizou e dirigiu um programa semanal intitulado “Uberaba em Revista”, e um de seus convidados de maior prestígio foi o filho mais ilustre da terra de Major Eustáquio, Joubert de Carvalho.

Nova estada em nossa cidade em maio de 1960, ao lado do seu irmão Antônio, na época renomado advogado e escritor. Ambos chegaram a Uberaba no dia 8 de maio e desfrutaram de hospedagem em casa de seu cunhado, Sr. Delfino de Carvalho Borges. Foi uma temporada de muitas confraternizações. No dia 12 de maio, a PRE-5 fez um programa especial com Joubert de Carvalho, onde ele apresentou uma nova composição, intitulada “Recordações de Uberaba”, em primeira audição. O encontro aconteceu no programa “Musical Céres”, levado ao ar às 18 horas na emissora.

Como se não bastasse, nos primeiros três anos do Festival do Chapadão, 1968, 1969 e 1970, criado e organizado pelo saudoso “Pratinha”, o ilustre compositor esteve em Uberaba para entregar aos vencedores o “Troféu Joubert de Carvalho”. Este evento tornou-se o maior festival de música popular que Uberaba promoveu ao longo de sua história e marcou época em suas nove edições.

Portanto, fica aqui registrado que os laços amorosos de Joubert de Carvalho com a nossa Princesa do Sertão perduraram por toda a sua vida, e ele demonstrou isso com a linguagem que melhor dominava – a linguagem musical.

Olga Maria Frange de Oliveira
Professora de piano, regente do Coral Artístico Uberabense, autora do livro “Pioneiros da História da Música em Uberaba” e ex-Diretora-Geral da Fundação Cultural de Uberaba

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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