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Uberaba, 15 de dezembro de 2019 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Choque de Gerações

Passei a última semana de julho em São Paulo, curtindo a companhia de minha irmã Mirtes e meus adoráveis sobrinhos. Toda vez que passo alguns dias por lá, percebo uma diferença muito grande no modus vivendi de quem mora numa cidade do interior e os que residem numa grande metrópole. 

No apartamento da minha irmã tudo é extremamente moderno. Sua cozinha contém itens como: máquina de lavar louças; panela elétrica para cozinhar arroz, que desliga sozinha; chaleira para ferver água que apita quando dá o ponto da fervura; forno adicional para aquecer quitandas; cafeteira elétrica, e por aí vai...

No quarto, transformado em local de trabalho, estão instalados dois computadores, que ela manipula ao mesmo tempo, mais um laptop, sendo que há um computador maior no escritório do apartamento. Na sala de estar fica uma enorme televisão com vários controles, que me deixam confusa e desorientada. Muito preparada, ela domina o inglês e o italiano. Sua biblioteca há muito não “fala” português.

Mas, minha surpresa maior foi quando decidi ir com meu marido assistir ao lançamento, em grande estilo, de um novo e arrojado empreendimento lançado pelo meu sobrinho Victor. Aprontamos “chique no úrtimo”, e lá fomos nós apoiar essa ousada iniciativa, com minha irmã ao volante de um carro automático, orientada pelo GPS.

O local da inauguração era num amplo auditório do Tívoli Mofarrej São Paulo Hotel, no bairro dos Jardins, a um quarteirão da Avenida Paulista. O novo empreendimento tem o sugestivo nome de beepbeep. A sala estava lotada, quase não havia lugar vago para nos assentarmos. Algumas pessoas se revezavam no palco, discorrendo sobre esta startup. Era um negócio inovador, o primeiro do gênero no Brasil, de aluguel de carros elétricos a preços módicos, para que as pessoas possam realizar deslocamentos com o máximo de conforto, sem consumo de combustível. O cliente pode deixar o seu carro na garagem e utilizar o carro do beepbeep. A devolução é feita em pontos estratégicos da cidade e o atendimento é rápido e satisfatório. Tudo funciona por “aplicativos”. Para dizer a verdade, o linguajar dos apresentadores era todo embasado em termos e expressões em inglês. Meu cérebro não captava a mensagem na íntegra por absoluto desconhecimento do assunto. Fizemos até um test driver, lógico que com minha sobrinha Cristina ao volante. E não é que a minha Cris ostentava um piercing no lábio inferior?

O coquetel finíssimo oferecia um cardápio com toques da culinária japonesa, ou seja, à base de peixes crus. É chique, mas não faz meu gênero. As garçonetes e garçons pareciam vindos de outro planeta com seus cortes de cabelo fora dos padrões tradicionais, pintados de verde, azul e até branco. Eu e meu marido parecíamos os Flintstones visitando os Jetsons.

Essas modernidades foram sendo introduzidas aos poucos, mas só agora, em 2019, percebi que não pertenço a esta geração. Serei sempre a querida tia provinciana, que adora viver numa cidade do interior, curtindo sua vidinha pacata e nada virtual. Até meu celular está “aposentado” há mais de um ano.

Fico feliz por ver meus amados sobrinhos abrindo seus caminhos e encarando novos desafios. Mas encontro a felicidade plena no meu cotidiano repleto de hábitos herdados dos meus avós, envolvida em pesquisas do século passado e trabalhando no meio musical uberabense, sobretudo com música erudita.

O tempo, na sua marcha inexorável, a tudo e a todos transforma. Tempus fugit! Uma geração passa, outra geração lhe sucede... como a neblina; somente a terra permanece. Já dizia o filósofo grego Heráclito: “Nesse mundo tudo flui, nada permanece”. Ai de nós! O futuro de hoje é o passado de amanhã. E assim caminha a humanidade... 

(*) Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba e ex-diretora-geral da Fundação Cultural de Uberaba

 

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