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Uberaba, 11 de dezembro de 2019 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Viajar é preciso...

O mês de julho já vai chegando ao final da sua primeira quinzena. Sinto saudade do tempo em que julho era totalmente dedicado às férias. Já faz tempo que o calendário escolar restringiu as merecidas férias de meio do ano a um breve recesso escolar. Nunca me conformarei com essas decisões que são tomadas de cima para baixo, ou seja, manda quem pode e obedece quem tem juízo. 

Já dizia o poeta: “Viajar é podar as próprias raízes”. É mais que necessário buscarmos a reposição de nossas energias longe de uma rotina que cerceia nossa imaginação. As viagens nos proporcionam um distanciamento que nos permite avaliar melhor as situações. As soluções surgem com muito mais clareza quando nos livramos do peso que agregamos diariamente aos nossos ombros. Há tempo para tudo, para trabalhar e, também, para descansar.

Quando viajamos, experimentamos de uma maneira muito prática o ato de “renascer”. Tudo nos parece novo: vivenciamos situações inusitadas, convivemos com pessoas desconhecidas e conhecemos culturas diferentes. Por outro lado, experimentamos novos sabores e admiramos paisagens instigantes que nos possibilitam dar asas à imaginação. Os dias se tornam mais leves e o tempo parece passar mais rápido.

Fernando Pessoa disse que “neste mundo, viajantes, somos somente passageiros, que não devemos dar demasiado vulto aos percalços do caminho”. Lya Luft falou sobre o tema com muita propriedade quando afirmou que “a vida tem que ser sorvida não como uma taça que se esvazia, mas que se renova a cada gole”.

Quando viajamos para qualquer lugar, ainda que seja relativamente perto, regressamos com as “baterias” recarregadas e a cabeça a mil por hora. Após uma pausa em nossa rotina, redescobrimos o prazer do cotidiano, pois passamos a enxergá-lo sob um olhar mais amoroso e otimista. Trazemos na bagagem um sem-número de objetos que vão assinalar doces recordações da viagem. Aliás, os compradores de pequenas “inutilidades” são mais sábios do que julgam as demais pessoas, pois compram na realidade fragmentos de “sonhos”. O custo material não deve ser levado em consideração, uma vez que o valor da peça adquirida é simbólico, representa a vontade de eternizar um instante de puro prazer, que não queremos esquecer.

Minha casa tem em cada canto objetos que contam histórias de viagens que assinalaram etapas importantes da minha vida. Um lar tem que ter a nossa identidade e registrar nossas memórias. Enquanto vivemos, nós estamos sempre “em construção”, acrescentando um tijolo a mais em nosso amadurecimento e nos tornando um ser humano melhor. Jamais contrataria alguém para decorar a minha casa, porque quero que ela se pareça comigo e seja depositária das minhas melhores lembranças. Li em algum lugar, que não me lembro onde, uma frase que me levou à reflexão por traduzir uma grande verdade: “Quando criança, media as distâncias por passos, hoje meço em anos”. Essa frase me tocou profundamente e fez soar em minha mente um sinal de alerta, lembrando-me de que tudo em nossas vidas é relativo. O tempo urge, os anos passam voando e as limitações físicas vão criando empecilhos intransponíveis. Não devemos desperdiçar a disposição física que ainda existe em nós, adiando indefinidamente a chance de nos aventurarmos numa viagem que amplie nossos horizontes. Amanhã pode ser tarde demais!...

Encerro estas reflexões com versos do poema “Passagem das horas”, de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa:

             Trago dentro do meu coração,

             Como um cofre que se não pode fechar de cheio,

             Todos os lugares onde estive,

             Todos os portos a que cheguei.

             Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

             Ou de tombadilhos, sonhando,

             E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. 

(*) Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba e ex-diretora geral da Fundação Cultural de Uberaba

 

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