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Uberaba, 07 de dezembro de 2019 -

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Olga Maria Frange de Oliveira

Minha Mãe

É domingo e não tenho o que fazer. O dia amanheceu claro e ensolarado. Uma linda manhã de outono brando para comemorar o “Dia das Mães”. Acordei com a algazarra de pássaros no jardim da minha casa. As maritacas estavam em festa! 

Este é o segundo “Dia das Mães” após a morte da minha mãe. O fato de ser hoje o dia consagrado às mães provocou-me um aperto no peito ao olhar o seu retrato, que coloquei em lugar destacado na sala de jantar. A memória afetiva traz à tona lembranças do passado, momentos de intimidade, quando a família estava completa e feliz. Todas essas lembranças fazem aflorar em mim emoções contidas que desatam laços de ressonância do passado e provocam sentimentos de saudade.

Tudo quanto amamos e perdemos nos roça a pele e assim nos chega à alma. Não quero desfazer-me, por preço nenhum, das ternas recordações do passado: dias de confiança no futuro, de sonhos possíveis e impossíveis, de uma mocidade que me parecia eterna. Tempos em que me sentia cercada pela proteção de meus pais, segura de que nada poderia me atingir nem a meus irmãos. Tenho um sentimento de ternura, ternura até as lágrimas pelos meus mortos.

O vazio deixado por minha mãe é maior que tudo. Não consigo entender os fatos que culminaram na sua morte. Ela era saudável, mas canalizava sua energia para o absoluto isolamento. Tornou-se prisioneira em seu apartamento. Não se interessava mais pelas coisas do mundo. Aliava a isso uma coação contra ela mesma, não deixando que cuidássemos dela, que a servíssemos, que tratássemos de seus problemas de saúde. Uma pessoa radicalmente avessa a médicos, além de arvorar-se em dona da verdade, não poderia permanecer saudável.

Estar doente é uma espécie de ressentimento, e por isso a pessoa passa a não aceitar mais nada, não comer nada, não tomar nada, não reagir mais de jeito nenhum. Nada nos consome mais depressa do que os ressentimentos e as emoções reprimidas. A dor não cria portas, a dor unicamente levanta paredes. O tempo acalma a dor da perda, mas não garante o entendimento. Chorar é o que faz a nossa alma se lavar de tudo o que suportamos calados, pela falta de alternativas. Segundo Clarice Lispector, “Ninguém pode pedir mais do que o outro pode dar, porque pedir e dar é um ato só, e um não existiria sem o outro”.

Minha mãe viveu uma velhice solitária e, de certa forma, independente como sempre idealizou. Seu mundo era do tamanho de seu apartamento e, para ela, nada se comparava ao aconchego do seu lar. Contestava qualquer pessoa repetindo um velho refrão: “Mulher direita não bate pernas na rua”.

Apesar de seu temperamento autoritário e inflexível, minha mãe tinha aquela memória da alma, aquela delicadeza que não é de superfície. Isso pode ser confirmado pelos pequenos gestos que realizou ao longo de sua vida e que ficaram registrados em sua caixa de recordações: os primeiros sapatinhos do filho primogênito, Eudóxio de Oliveira Júnior, junto com uma mecha de cabelos do bebê e o cordão umbilical, guardado com desvelo maternal numa minúscula caixinha forrada com algodão, como se fosse uma joia. Montou também um álbum com fotos, mês a mês, de meu irmão Juninho, até ele completar um ano de vida.

Quando eu a presenteava com um bom romance, seu gênero favorito de leitura, tinha o hábito de escrever uma pequena e amorosa dedicatória. Ela podia até nem ler o livro, mas exibia a dedicatória para Deus e o mundo, como se fosse um troféu, e eu a observava lendo e relendo mil vezes as breves palavras que lhe escrevera.

Olga-mãe tinha um certo humor muito peculiar e gostava de uma boa prosa, onde ela se tornava o centro das atenções. Aí, exagerava ao máximo as qualidades daqueles a quem amava, seu falecido marido e seus três filhos: Juninho, Olga Maria (Bahia) e Mirtinha. Vezes sem conta sentia-me constrangida quando ela afirmava categoricamente, para sua reduzida plateia, que eu era “superdotada”. E não se contentando, enfatizava dizendo com todas as letras: “superdotada, filha de mãe superdotada”. Eu não sabia onde colocar a minha cara, e dizia envergonhada, “menos, mãe, menos”. Mas ela não se emendava!

Onde a senhora está agora, mãe? Sinto tanta saudade! Escrevo triste, na minha sala, quieta, na mesa que era sua. Sinto em mim uma força religiosa. Aqui eu, a refletir sobre a morte! Ou seria sobre a vida? A tentar traduzir a vida, a passar para o papel minha visão de mundo muito pessoal. Saudades sempre! Feliz “Dia das Mães”! 

(*) Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba, ex-Diretora Geral da Fundação Cultural de Uberaba

 

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