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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Antes que seja tarde

Mais de um ano de isolamento social, sem grandes perspectivas de uma volta à normalidade e com uma terceira onda de contágio pela Covid-19 a caminho. Imagine como está a cabeça das nossas crianças e adolescentes, que deveriam estar levando uma vida mais livre, de convivência com os amigos, da proximidade tão natural à infância, de descobertas e no auge de seus questionamentos em grupo.

A fase que engloba o desenvolvimento dos 5 aos 17 anos é delicada, e a adolescência é ainda mais complexa, pois é quando os pequenos – quase grandes – passam a não se identificar mais com o universo infantil, mas também ainda não são adultos e precisam da coletividade, da troca, para buscar suas referências no sentido de definir a própria identidade. Com o isolamento, esse processo está interrompido ou, no mínimo, dificultado. A falta de interação e o consequente sentimento de solidão são fatores de risco importantes para a depressão.

Uma pesquisa recém-publicada pelo Instituto de Psiquiatria da USP mostrou que, num universo de quase sete mil crianças e adolescentes (com idade entre 5 e 17 anos), 26% apresentam sintomas clínicos de ansiedade e depressão, ou seja, há uma necessidade premente de atenção a esta situação e a consideração, por parte de familiares e educadores, por buscar atendimento especializado. Os resultados prévios do trabalho, que teve início em meio à pandemia, em junho do ano passado, indicaram que 13% dos jovens se sentem solitários; 23% dormem depois da uma hora da manhã; 48% não se exercitam, e 37% estão sem uma rotina definida.

Segundo a Opas/OMS (Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS na região), as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos. Além disso, os dados apontam que metade de todas as condições que refletem na saúde mental começa aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada.

A OMS aponta, ainda, que, em todo o mundo, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes, sendo o suicídio a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.

É necessário, assim, um esforço da sociedade, juntamente com uma parceria família-escola, para promover um trabalho com foco na saúde mental dos adolescentes, para ajudá-los a superar o período de pandemia e garantir-lhes uma vida saudável, produtiva e que seja próspera. Estamos falando do futuro da humanidade, então, não dá para ignorarmos esse fato e não ajudarmos nossas crianças agora.

Um fator importante a ser considerado, além do estado de pandemia, é que os problemas relacionados à depressão e à ansiedade em adolescentes não são de hoje. Outro estudo, realizado pelo Instituto Ayrton Senna e que ouviu, em novembro de 2019 – antes da pandemia, portanto –, 110 mil estudantes, do 5º e do 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio, revelou que 29,72% dos alunos disseram ter sofrido zombarias, intimidações ou humilhações nos 30 dias que antecederam o estudo. Isso reforça que um trabalho de atenção socioemocional a indivíduos nessa faixa etária exige também um planejamento das escolas no sentido de promoverem a aceitação, inclusão e capacidades socioemocionais nas crianças, sempre em parceria com a sociedade e a família.

Sabemos que muitas questões afetam esse grupo de diferentes maneiras e que, economicamente falando, não se trata de um grupo homogêneo, então é importante levarmos em consideração as vivências e realidades de cada criança. Algumas perderam familiares, ou mesmo o pai ou a mãe. Outras passam por dificuldades financeiras. O adolescente oriundo de família de baixa renda, por exemplo, com certeza não teve o direito ao isolamento e muitos estão assumindo a responsabilidade de ajudar no sustento da família ou na casa. Qual é o impacto disso a longo prazo? Infelizmente, para muitos jovens, adolescer significa se tornar responsável pelos irmãos menores. Por isso, olhar individualmente para cada um deles faz toda a diferença neste momento.

Por outro lado, posso afirmar que todos têm um ponto em comum: o impacto da falta de socialização nesta fase crucial de desenvolvimento na formação da identidade. Todos vão sair desse período de pandemia com dificuldades maiores do que teriam normalmente. A vida em si já é um desafio, mas o que testemunhamos agora não tem precedentes. Todas as questões de autonomia e desenvolvimento do senso de si serão prejudicadas. E nosso papel, como profissionais da Saúde, pais e responsáveis, é de estarmos alertas e agirmos de forma rápida, se necessário.

Sei que não é um momento fácil para ninguém. Todos estamos muito ansiosos com o futuro e temos as nossas próprias questões a resolver. Mas é fundamental olharmos de verdade para os nossos filhos e criarmos espaços de diálogo. Antes que seja tarde demais.

Ana Cristina Ribeiro Zollner
Bioeticista, pediatra e professora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro – Unisa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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