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Uberaba, 16 de junho de 2021 -

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Ana Lúcia Vieira Rezende

Os 50 tons de um casamento

Um rapaz conhece uma moça, se gostam e começam a namorar.

Eles estão apaixonados, se acham um feito para o outro e se fundem em um só. Problemas não são empecilhos e começam a vislumbrar um futuro. Então casados, tudo estará melhor, levando suas vidas profissionais e a esperança óbvia de viverem felizes para sempre, acompanhados de seus filhos.

Às vezes, já escolhem até os nomes dos mesmos. Alguns mais preocupados pensam até em como vão educá-los e levá-los às promissoras profissões.

Animados e felizes, dão início aos preparativos para o enlace tão esperado. A festa será inesquecível.

O enxoval preparado, o vestido de noiva escolhido com esmero para um evento deslumbrante, e as noivas são sempre lindas. Um casal de contos de fadas. Esta é a imagem.

Acontece o grande dia e tudo começa como um jardim do Éden, com as devidas promessas de estarem juntos nas alegrias e nas tristezas, na saúde e nas doenças.

Sonhos fazem parte de nossas vidas, mas, como diz o ditado, a vida não é feita só de sonhos.

Com o passar dos anos, eles percebem que algo está diferente e aquele filme colorido começa a adquirir as tonalidades de preto e branco.

Eles se esqueceram das surpresas e metamorfoses com que a vida nos presenteia através das adversidades no passar dos anos.

E nesse ano de 2020, as fadas tiraram férias e as bruxas invadiram a humanidade, trazendo a pandemia, suas consequências funestas e pegando a população de calças curtas e despreparada para todos os setores da vida e, obviamente, trouxe seus reflexos nos casamentos e relacionamentos.

A busca por advogados e cartórios foi tão grande em 2020, que os processos de divórcios passaram a ser virtuais.

Os problemas alegados foram os atritos gerados pelo isolamento e a convivência extrema, mas tais alegações são imediatas e restritas e, portanto, cabe analisá-los sob outros ângulos.

Sabe-se que separações formais e informais sempre existiram e as ofensas aparecem, como: você não era como antes, cheira mal, está feia/o, não me dá a mesma atenção, é agressivo/a, o sexo está um lixo, você cobra demais, a comida não presta e por aí vai.

Nesse contexto é útil utilizarmos o questionamento socrático e a pergunta que se faz é: será que este par estava preparado para a seriedade e responsabilidade de uma convivência diária frente às dificuldades que a vida traz? A maturidade prevaleceu sobre a idealização primeira de um mundo de felicidade?

E o tal amor? Aonde ficou esse sentimento nesse contexto que exige compreensão, resiliência, tolerância, aceitação, responsabilidade e respeito às individualidades com suas peculiaridades, qualidades e limites?

A capacidade para o enfrentamento dos conflitos humanos repousa no tripé – equilíbrio emocional, maturidade, amor ao próximo ou se tiverem mais alguma, podem até acrescentar.

A origem das dificuldades numa convivência a dois ou mais podem se agravar por uma ocorrência de grande magnitude, mas as causas não se limitam apenas a este contexto, mas também à falta de preparo, capacitação mental e emocional das pessoas para o enfrentamento das adversidades próprias da vida. 

Ana Lúcia Vieira Rezende é psicanalista

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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