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Uberaba, 17 de maio de 2022 -

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A Biologia de um eleitor

A sua visão política pode ser influenciada pela biologia? Bom isso é o que alguns pesquisadores vêm tentando entender. Será que seu cérebro faz com que você goste mais de um político ou de outro? Há determinismo genético nisso?

Bom inicialmente, não podemos falar em determinismo genético. Sempre que alguém falar que o gene determinou tal comportamento você deve aumentar sua atenção, pois aí está um campo extremamente complicado de determinismos. Entenda o gene como os ingredientes da receita de um bolo. Se o bolo vai ser de chocolate ou qualquer outro sabor depende de como os itens serão misturados. E quem vai fazer a receita para os genes? O ambiente que ela vive, experiências vividas em geral e todas essas coisas se misturam para a complexidade do comportamento humano.

Agora, como disse certa vez aqui, nosso cérebro não se adaptou a velocidade que evoluímos nossa sociedade. Criando sérias discrepâncias. Ele não evoluiu para separar uma área para partidos comunistas, partidos liberais ou qualquer outra denominação confusa de hoje em dia. Ele se vira com o que tem. E então o que ele faz?

Suponhamos que você não goste de uma agenda liberal, em que por exemplo, o casamento homoafetivo seja algo legalizado, ou mesmo o aborto. O que é indicado por estes estudos é que esses indivíduos possuem uma ínsula mais reativa (é uma região do cérebro relacionada ao nojo, e acaba por querer nos afastar de algo) e quando essas pautas são colocadas ela então, reage.

Algumas outras características pesquisadas são mais voltadas para questões relacionadas a conservadores e liberais. O que foi visto, foi que conservadores são mais confortáveis com hierarquia, ordem e questões de novidades costumam envolver reações de “ameaça”. Por se vincularem mais com necessidade de autoridade, em algumas pesquisas eles associavam palavras ambíguas como “arms” mais com “weapons” ao invés de “legs”. (arms: armas, weapons: armas, arms também pode ser braços, o que faria sentido também relacionar a legs= pernas).

Estes levantamentos sugerem que liberais possuem limiar de nojo menor, uma ínsula menos reativa, mas que se estimulada – colocando o indivíduo para cheirar lixo, por exemplo – faz com que um indivíduo liberal passe a ter respostas socialmente mais conservadoras.

Bom, isso é apenas uma parte do quão complexo é definir o comportamento. Reações que muitas vezes não são conscientes podem definir nossa percepção de mundo, consequentemente nosso voto e por fim nosso futuro como cidade, estado ou país.

Rafael Jordão, é psicólogo de formação pela Universidade de Uberaba, possui MBA na área de Economia Comportamental pela ESPM e é mestrando em Psicobiologia na linha de comportamento econômico na USP. Atualmente é psicólogo organizacional na Ebserh. @rafael.jordao


Referência: Kanai, R., Feilden, T., Firth, C., & Rees, G. (2011). Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Current biology, 21(8), 677-680.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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