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Uberaba, 22 de maio de 2022 -

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Algumas considerações sobre seu voto

Com as eleições chegando temos um momento propício para pesquisar como as pessoas tomam decisões. Escolher um candidato, antes de mais nada, é algo que na teoria é considerado uma escolha racional, mas na prática foge bem disso.

O que influencia uma pessoa a escolher um candidato ou outro podem ser inúmeros fatores. Argumentos e planos de governo muitas vezes podem ficar para segundo plano. Ou você votaria em alguém que não vai com a cara, porém tem um bom plano de governo? Tem algo além aí.

Para ilustrar isso melhor, pense em um experimento feito com crianças de 5 a 11 anos aproximadamente. Os pesquisadores questionaram as crianças “quem deveria ser o capitão do seu barquinho?” e mostrava pares de fotos de candidatos. As crianças, que não haviam visto nenhum plano de governo nem nada, acertavam em 71% das vezes os candidatos que ganharam aquelas eleições.

Sim, basicamente ao ver a foto de duas pessoas juntas, as crianças acertavam em 7 das 10 vezes que tentavam quem era o eleito, isso só olhando a cara do sujeito. Então os pesquisadores resolveram testar com adultos. E como você acha que foi?

Pois bem, para os adultos não dava para perguntar sobre o capitão do barquinho então eles perguntavam a eles “Quem você acha que é mais competente?”. E os adultos acertavam em 72% os eleitos. Novamente, sem plano de governo nem argumento algum, apenas olhando uma foto.

A questão aqui que fica é que existem traços, que muitas vezes nem sabemos ou percebemos, que chamam nossa atenção e acabamos por fazer julgamentos. Pessoas com determinado tipo de formato de rosto, ou posturas podem nos influenciar muito mais do que gostaríamos de assumir.

Outro ponto importante é o que chamamos de heurística do afeto. A heurística é um atalho mental, ela facilita nossa vida quando existe informação demais e não conseguimos lidar muito bem com isso, assim ela apresenta um caminho mais rápido a questões que se fossemos olhar a fundo são complexas. A Heurística do afeto diz respeito a escolhermos muito pelo que as emoções nos guiam. Assim, se preciso de escolher entre duas opções e uma delas me faz bem, mesmo sem eu perceber, eu opto por ela. Ela é uma reação imediata e intuitiva, não paramos para perceber apenas escolhemos.

Caso a sensação seja negativa, afetivamente falando, tendemos a não escolher aquela alternativa. Fazendo com que sejamos guiados muito pelo papel da emoção. Assim, se um político cria repulsa ou simpatia em você, isso é boa parte do caminho percorrido para que seu voto seja decidido.

Portanto, ficamos com uma grande ilusão de achar que o voto é racional e pensado. Quando na prática vemos é que o voto já foi escolhido bem antes de você perceber, depois você simplesmente justificou o que fez.


Rafael Jordão, é psicólogo de formação pela Universidade de Uberaba, possui MBA na área de Economia Comportamental pela ESPM e é mestrando em Psicobiologia na linha de comportamento econômico na USP. Atualmente é psicólogo organizacional na Ebserh. @rafael.jordao

Referência: Antonakis, J., & Dalgas, O. (2009). Predicting elections: Child's play!. Science, 323(5918), 1183-1183
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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