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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Morreu o mito da democracia racial

Caro leitor, 2020 ficará para a história como o ano em que o mundo parou, em razão da pandemia do coronavírus. Mas também é o ano em que a sociedade do Brasil e do mundo, através de grandes personagens e em diversos setores, resolveu não mais conviver com a falsa premissa histórica da democracia racial. Nos EUA, a morte torpe e desumana de George Floyd desencadeou uma série de reações contra o Racismo histórico e até então ignorado nos cinco continentes do planeta, sob a falsa ideia da democracia racial e dos conflitos pontuais.

Em meio à bolha desportiva criada em prevenção ao vírus chinês, a NBA, que é o maior evento do cosmos em faturamento e telespectadores, viu seus astros entrarem em quadra para enfrentar um adversário até então imbatível, o Racismo. Vários atletas, ícones mundiais, protestaram nas quadras, e quando suas equipes foram sendo eliminadas passaram a atuar nas ruas de Los Angeles, Chicago, Boston e Nova Iorque, em defesa da vida dos negros americanos. Foi a explosão do movimento, que chegou no mesmo fim de semana à categoria mais elitista e racial do planeta, a Fórmula 1, que em todos os seus setenta anos de existência teve apenas um piloto negro no seu grid, o maior de todos, Lewis Hamilton, o inglês que assumiu sua negritude e gritou no paddock: “vidas negras importam”! Lewis poderia ter negado suas origens em um ambiente em que a presença de negros, não só pilotando carros, mas também como engenheiros, mecânicos, jornalistas, investidores e clarividente por si só ausente.

A FIA - Federação Internacional de Automobilismo, diferente de alguns pilotos, entendeu o momento e o protesto do seu maior campeão e, na mesma temporada, já adotou algumas medidas pra mudar a realidade atual ao longo dos próximos anos. Enquanto isso, no resto do mundo, os cientistas buscam entender por que o número de pessoas brancas infectadas com Covid-19 é maior do que o de pessoas negras e por que o número de mortes de negros, em decorrência do vírus, é maior do que o de pessoas brancas. Ainda é cedo para apontarmos que seria meramente comorbidades ou fatores sociais a causa do segundo fator, as mortes regras. Continuamos na Europa e no esporte. O célebre triste jogo entre PSG (França) x Basaksehir (Turquia), pela Liga dos Campeões da Europa, foi interrompido logo no início, após um árbitro reserva de nacionalidade romena, ofender o camaronês Webo no banco de reservas da equipe turca, com a infeliz frase “tira esse negro daí”.

Estupefatos, os jogadores turcos perguntaram quem, e o árbitro insistiu “esse negro aí”!! Foi o bastante para os jogadores das duas equipes darem uma aula para a humanidade sobre combate ao racismo e abandonarem o campo de jogo. Ali estava dado o recado novamente, diante das câmeras de TV do mundo todo, de que nós, os negros, de qualquer nacionalidade e em qualquer lugar, não vamos tolerar mais isso. Voltamos à Amárica então. A sociedade americana, que nas eleições anteriores abdicou do voto, rapidamente entendeu o recado da NBA e do futebol, e elegeu a primeira vice-presidente negra de sua história, Kamala Harris, ao lado do democrata Biden, que nomeou em seu primeiro escalão 52% de mulheres, entre elas uma deputada indígena na pasta do Interior, além do primeiro negro chefe do Departamento de Defesa dos EUA, general Austin, veterano do Iraque e Afeganistão. Isso mostra que a política interna e a política externa da maior economia do planeta serão comandadas por dois negros! Sim, mas e o Brasil? O Brasil, que sempre gostou de copiar os americanos, inclusive em suas tragédias, como a escravidão negra, despertou para o problema da mesma forma trágica.

O episódio da morte do cliente do Carrefour, conhecido como Nego Beto, em Porto Alegre, por seguranças despreparados, conforme nota do inquérito policial remetido à Justiça gaúcha, rendeu à rede francesa diversos “prejuízos” que poderiam ter sido evitados se a empresa tivesse um programa de treinamento e desenvolvimento de práticas de promoção da igualdade racial. A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul pede em juízo uma indenização coletiva no valor de R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais) como forma de reparar o dano causado a todos os consumidores negros da rede no país. Some-se isso o “gasto” com publicidade com desculpas nas redes de TV, no horário mais caro nos dias do fato, além da indenização individual à família da vítima. Tudo isso poderia ter sido evitado se o Brasil tivesse políticas efetivas de combate ao racismo, e abro um parêntesis aqui: Uberaba já foi referência no assunto, mas hoje assiste covarde e em nada contribui diante de tantas atrocidades raciais afloradas. Poucos dias antes da tragédia no Sul, a B3 (Bolsa de Valores do Brasil), foi denunciada pela Educafro, por prática de racismo estrutural quando não trabalha a inclusão de negros nos seus quadros de management e liderança. A B3 foi chamada à mesa e o resultado da reunião foi desastroso, pois seus executivos não tinham o menor conhecimento sobre os temas ali abordados e se assustaram com a proposta de denúncia no STF por descumprimento do artigo 192 da Carta Magna. Ora, não há que se falar em coletividade quando a coletividade não está ali representada. Em resumo, não há negros na B3. O presidente do órgão pediu um tempo para se integrar melhor com sua equipe da gravidade do problema.

Voltemos ao esporte, que deveria ser um ambiente e ferramenta constante de inclusão, e nos deparamos com o caso Gerson, do Flamengo, e o “cala boca negro”, que num primeiro momento tentou-se colocar a negativa na língua do ofensor e foi rapidamente desmentido por três especialistas em linguagens de sinais. O Bahia, que é um dos clubes com maior número de ações em defesa do fim do Racismo, legitimado pelo povo baiano preponderantemente negro, não só afastou o atleta como demitiu o treinador Mano Meneses, que tentou preservar seu atleta, em uma atitude criticada por todos os demais clubes e imprensa brasileira. O episódio escancarou o despreparo dos nossos treinadores, arbitragem e da CBF com o assunto, mesmo depois dos episódios com Antonio Zago, Tinga e Aranha, todos vítimas de Racismo, anos atrás, nos estádios do Rio Grande do Sul. Não muito longe daqui, o episódio do garoto uberlandense Luiz Eduardo chocou o Brasil, em uma competição para crianças até 11 anos.

O treinador, a la “Mano”, gritou por várias vezes no jogo “cerca o preto, cerca o preto”, da forma mais pejorativa, violenta e racista que uma criança pode ser tratada. O menino desabou em campo e foi amparado pelos colegas de equipe, por sua família, que foi até Goiás fazer a denúncia criminal e pelo Santos FC que, sensibilizado, convidou o garoto para um teste. A ideia era parar aqui, mas, ao mesmo tempo que escrevia este artigo, explodiu a notícia que o mesmo Santos FC foi denunciado por dois funcionários por prática de injúria racial de dois diretores do clube. O diretor, ao abrir a porta de uma reunião do Departamento Jurídico com o departamento de Recursos Humanos do Peixe, ao ver os envolvidos sentenciou: “aqui é a reunião da senzala”. Foi o bastante para a denúncia estourar, ao mesmo tempo em que o elenco profissional recebia a visita do garoto uberlandense. Casos como estes sempre existiram, mas assim como no crime de estupro, as vítimas sempre se calam por medo de retaliações ou prejuízos. 2020 nos mostra de forma clara como sol a pino, que o mito da democracia racial morreu no mundo todo e as vítimas começaram a gritar, anônimas ou famosas, e a inclusão e o respeito aos negros, definitivamente, não darão nenhum passo atrás. A luta está mais forte que nunca!!!! Vidas Negras Importam, sim!!! #noracism. Feliz Natal e um 2021 com muito mais amor entre as pessoas e menos Racismo, mais oportunidades e menos exclusão. É o que todos sonhamos.

Adriano Leal
Advogado e membro da Frente Nacional Antirracismo

 

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