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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Estamos ficando menos violentos?

Nesse artigo pretendo apresentar o argumento do psicólogo canadense Steven Pinker de que a nossa sociedade está menos violenta, apesar de acharmos o contrário. Também apresentarei um argumento que contradiz suas ideias, pois talvez o psicólogo esteja olhando apenas um lado da questão.
Nas mais de mil páginas do livro “Os anjos bons de nossa natureza: Por que a violência diminuiu?”, Steven Pinker argumenta que vivemos no período mais pacífico de nossa história. O autor, detalhadamente, demonstra que os homicídios caíram mais de 90% na Europa desde a Idade Média. Antes dos Estados modernos, a taxa de mortes violentas era cerca de 15% e no século passado tende a ser cinco vezes menos que isso. Em todo o livro, o autor traz dados que mostram que a morte por violência era muito mais comum do que atualmente, em todo o mundo.
Mas por que temos a impressão de que a violência está tão presente em nossos dias? Duas respostas podem ser dadas para essa questão. A primeira é por causa de um efeito cognitivo e a segunda é porque a violência não diminuiu. Vamos discutir o primeiro, inicialmente.
A mente humana é um poderoso sistema capaz de interpretar informações. Apesar de eficaz para a grande maioria das tarefas, ela também é passível de erros que muitas vezes nos passam imperceptíveis. Você já se pegou pensando coisas como: “Se isso deu errado, então hoje tudo vai dar errado!”. Pensamentos desse jeito acontecem frequentemente e são parte da natureza da mente. Um desses erros está ligado com a disponibilidade de uma determinada informação. Sabe aquela frase “repita uma coisa mil vezes e ela se torna verdade”? Nesse tipo de situação, nosso julgamento é afetado pela frequência com que um determinado evento nos é contado, afetando nossa percepção.
É nesse sentido que discutimos que quanto mais somos expostos a coisas violentas, como televisão, rádio ou jornal, mais tendemos a acreditar que estamos vivendo uma verdadeira hecatombe e a consequência disso é que mais sentimos que o mundo é um lugar inóspito, que devemos ter medo, sem segurança e que devemos desconfiar das relações humanas.
O segundo contraponto é que a violência não diminuiu porque o aspecto quantitativo, que avalia quantas pessoas morreram ou que não aplicamos mais torturas medievais aterradoras, conta apenas uma parte da história. A outra parte é que existe uma outra violência, mais difícil de ser mensurada, que é a violência qualitativa. Podemos citar a violência simbólica, a afetiva, a psicológica, a de gênero e tantas outras que ainda persistem em nossa sociedade.

Matheus Felix Ribeiro
Psicólogo cognitivo-comportamental; doutorando em Neurociências (UNB); vice-presidente do IBDFAM-Uberaba
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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