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Uberaba, 22 de outubro de 2020 -

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Abigail Emília Bracarense

Compromisso com a cultura humanista: histórias na história de uma instituição

Integro-me à comemoração dos 70 anos da FISTA, com uma das muitas histórias pessoais que se alinhavam na construção da história desta instituição, mais presente do que nunca nos 200 anos de Uberaba. Que relação existe entre o sentimento de pertença que experimento até hoje e as histórias pessoais que coexistiram, entrecruzaram-se e se sucedem aos 31 anos de sua existência? 

Acredito que o fundamento humanista de sua prática educativa, crítico e desmistificador, com foco no “ensinar a pensar”, seja responsável por tudo que ficou. Essa prática, marcada pela busca de lucidez diante da realidade, formava profissionais de nível superior pela perspectiva de um humanismo cristão. Ou seja, humanismo em que, eticamente, o “conhecimento” se compromete com o “ideal de transformação da sociedade” em busca da justiça social.

Por essa perspectiva, duas situações repercutiram muito naquele momento. Por um lado, o movimento estudantil, dado o diálogo entre uma educação crítica e a mobilização desse segmento como resistência política ao governo militar. Por outro, a emergência da Teologia da Libertação, movimento da Igreja Católica de enfrentamento às grandes desigualdades sociais da América Latina. Esse último fato resultou na recomposição do seu corpo docente, já que muitas dominicanas, numa opção pelos pobres, foram viver nas periferias, juntando-se às suas lutas e necessidades.

Mas, a FISTA também foi atingida pelo Decreto-lei nº 477, de 26.02.1969, que versou sobre “infrações disciplinares” pelos critérios do regime e pelo Ato Institucional nº 5, de 13.12.1968, que deu poderes ao governo para reprimir seus opositores: atingiram tanto o movimento estudantil quanto o corpo docente. Na prática, evidenciaram-se contradições latentes e condicionaram outras, o que abalou relações que, até então, eram harmônicas.

Ao tocar neste assunto, emendo a conversa pelo viés dos conflitos e das contradições que fizeram parte do que ali vivi. Consegui superá-los porque o “aprender a pensar” me permitiu reconhecer, interpretar e relativizar as interdependências existentes entre ambiente, fatos e sujeitos. É que no espaço do movimento estudantil não fui isentada de episódios de discriminação e rejeição, dada minha condição de filha do comandante militar da região, sediado em Uberaba. Um desconforto para quem, pelo contrário, dialogava ativamente com a visão de homem e de mundo que pauta até hoje seu modo de ser e sua participação cidadã, fruto da formação que a FISTA proporcionou. Ou seja, nenhum conflito conjuntural surtiu efeito imobilizador na minha trajetória.

Considero que, enquanto memória coletiva, essa matéria prima dos depoimentos publicados pelo JM, oferece a visão de que, para além de uma postura crítica, fundada num conhecimento consistente, valores e princípios perenes se manifestam até hoje sob diferentes formas e intensidades. Fortalecem os que perseveram no entusiasmo daquela trajetória porque tornam possível retomar a consciência de que persistem as exigências de transformação da realidade e, não apenas, de participação como cumpridor de papéis e regras. 

(*) Graduação em Pedagogia/Fista; professora aposentada da UFU; mestre em Gestão Pública e Sociedade (Unifal); especialista em Gestão Universitária (UFSC); especialista em Educação e Desenvolvimento de RH (UFRJ); especialista em Educação Brasileira (PUCRJ)

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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