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Uberaba, 23 de fevereiro de 2020 -

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Bruna Gontijo Magalhães

Envelhecer em família

Um desejo comum à maioria das pessoas é o de viver por muitos anos. Você já pensou de quais pessoas gostaria de ter a companhia ao envelhecer? É possível prolongar a vida com qualidade e ainda estar no convívio da família? Ou será que envelhecer é sinônimo de solidão e finitude? 

Nos últimos anos, temos presenciado um aumento da população idosa. Na contramão a este crescimento, o que temos acompanhado é que muitas pessoas, ao chegarem nesta fase da vida, estão perdendo seu lugar e sua voz ao serem excluídas de seu convívio familiar e social devido a asilamentos. Em resposta ao nosso despreparo em vivenciar e pensar sobre esta etapa, culturalmente aprendemos a negar e a tentar adiar ao máximo o envelhecimento, desta forma, compreendendo este processo como sendo negativo e indesejável.

O envelhecimento é um processo irreversível e que provoca inúmeras transformações individuais e familiares. A perda da autonomia e da independência, comuns a esta etapa, levam a pessoa idosa a necessitar de cuidados prolongados de seus familiares. Estas novas exigências afetam tanto o idoso, que passa a ocupar o lugar de ser cuidado, quanto a família, que por muito tempo pode ter sido responsabilidade e também cuidada por este membro. Não raro, as tarefas referentes aos cuidados são direcionadas a apenas um familiar e, geralmente, este papel de cuidador é ocupado por mulheres, que também possuem uma jornada de trabalho dentro e fora de casa, o que contribui para o aumento da sobrecarga emocional e física em cuidar.

Todas estas mudanças podem levar a muitas tensões e dificuldades no convívio em família, pois exigem uma reestruturação da dinâmica familiar e, possivelmente, uma reorganização das funções exercidas pelos seus membros. Logo, tanto o idoso quanto seu sistema familiar necessitam de atenção e cuidados especiais para lidarem de forma mais segura e saudável com esse processo.

Em meio a tantas mudanças, limitações e perdas, é comum que o idoso se apegue ao que lhe é conhecido, como suas memórias e lembranças dos tempos de juventude, que são contadas repetidas vezes; seus objetos e pertences pessoais gastos pelo tempo e dos quais se recusa a desfazer, os lugares que deseja morar e frequentar por serem habituais e, também, por compor parte de suas histórias e as pessoas conhecidas das quais buscam ter sempre a companhia.

Esse apego é uma maneira de o idoso conseguir reforçar seu sentimento de pertencimento. Neste sentido, estar em família e envelhecer com a companhia, presença e participação da família podem ser uma alternativa mais saudável de vivenciar este processo, pois é a família que dá sentido à existência do ser humano. Quanto mais participativo da vida familiar o idoso estiver, mais recursos ele terá para enfrentar as alterações decorrentes do envelhecer.

Através do acolhimento e da construção de novas formas de comunicação e interação, a Terapia Familiar Sistêmica tem por objetivo auxiliar o idoso e sua família a enfrentarem as novas exigências desta etapa do ciclo vital, contribuindo na diminuição do sofrimento, promovendo maior qualidade de vida de todos e de cada um individualmente, além de ser um suporte psicológico muito importante para o bem-estar e o bom relacionamento familiar.

Envelhecer em família é reconhecer o envelhecimento como um processo natural, em que o pertencimento e as trocas afetivas nas relações familiares são mais presentes que o medo limitante da finitude. 

(*) Psicóloga e integra a equipe do Ineps - Instituto de Neurociências Elza dos Passos Silva, em Uberaba; CRP 04/37109

 

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