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Uberaba, 16 de junho de 2021 -

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Dedê Prais

Tudo que foi bom dura o tempo suficiente para ser inesquecível

Sou uma mulher de lembranças, encontros e estórias. Um pouco de fantasia, eu diria. Gosto de conversar e de relembrar, costuro sonhos, desato pensamentos. Coisas de quem vive só, mas encara a solidão. Quem fica ao meu redor tem que entender que, vez em sempre, alguma lembrança será tomada por mim, com prazer.

Aproprio-me devidamente do meu tempo e sigo em frente, acreditando que tudo que foi bom dura o tempo suficiente para ser inesquecível. Assim, como ex-aluna e professora do Colégio N.S. das Dores e da Fista, acredito que, ao celebrar os 135 anos da presença das dominicanas entre nós, tenho muito a dizer sobre a grandeza e “boniteza” (como diria Paulo Freire) da inconfundível e irretocável de suas contribuições na Educação da cidade.

Sem dúvida, posso afirmar que a Ética cristã foi o eixo nuclear de seus trabalhos. Em decorrência disso, a preocupação com a formação humana no seu todo sempre esteve em foco, nas suas diferentes propostas curriculares. Disto resultou a constante preocupação de trabalhar congregando a informação com a dimensão do APRENDER A SER, ou seja, a ênfase no humanismo foi o que lhes permitiu destacarem-se como verdadeiras educadoras, pois, além do conhecimento, buscavam o crescimento humano, a consciência política e os compromissos com a vida em sociedade. Portanto, num reconhecimento sincero, registro a importância das dominicanas em minha formação de educadora.

Começo por dizer que toda narrativa de vida é um exercício de saudade que mistura lembrança e imaginação com a certeza de que o essencial não cabe nas palavras. A lembrança, na verdade, é uma relação de amor. Seu objetivo é sentir saudades, sobretudo, quando tem um significado especial na nossa vida. Nesse caso, refiro-me à minha descoberta como educadora, onde, sem dúvida, as dominicanas têm um papel de destaque.

Toda a minha trajetória escolar, exceto a minha pós-graduação, aconteceu sob a influência das dominicanas. No Colégio N.S. das Dores recebi e trabalhei num ambiente de formação rígida e tradicional, em que se cultivava o trabalho intelectual, a competência, o respeito, o compromisso com o outro, o perdão e a justiça social, enfim a ética cristã, sem resignação, pois de fato aprendi a ser indignada e, por isso, sempre luto contra as injustiças sociais que muitas vezes se colocam entre nós.

Na Fista, como aluna e mais tarde professora, consolidei a minha formação, num clima de fraternidade, consciência política e, sobretudo, compromisso com o social. Tive mestres inesquecíveis e cumpri a rotina dos pobres que estudam. Aliei estudo e trabalho. Aos 18 anos, comecei, oficialmente, minha vida profissional, pois aos 14 anos dava aulas particulares. Nesse tempo, ávida por entender o que se passava nos movimentos estudantis, enveredei-me nos caminhos da fascinante política universitária e participei da JUC – Juventude Universitária Católica, da UNE – União Nacional dos Estudantes, e do Movimento de Alfabetização de Adultos, desencadeado por Paulo Freire, quando a convite do Presidente da República, usando seu próprio método, coordenou o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos, o que, por incompreensão dos governantes da época, o levou ao exílio, onde permaneceu por 16 anos. E mais, sob a recomendação dos meus professores e, em especial do Padre Prata, a quem mais tarde vim a substituir, na cátedra de sociologia, entrei em contato com pensadores que muito influenciaram a minha maneira de pensar e agir. Dentre eles, ressalto como mais importantes: Florestam Fernandes, Antônio Cândido, Darci Ribeiro, Anísio Teixeira e, sobretudo, Paulo Freire.

Agradecida, tornei-me educadora e há precisamente 63 anos mergulhei no mundo da escola para descobrir os seus mistérios, tendo chegado às suas convicções por um caminho árduo, porém cheio de boas surpresas e, por isto, ainda hoje, respondo aos desafios que me são propostos. Fui educadora em todos os níveis e assumi cargos diferenciados. Assim, caras dominicanas, com o coração saudoso, mas reconhecido, sou-lhes eternamente grata e lhes digo: “Não há consciência sem memória”. Assim, registro aqui minha gratidão e toda a minha reverência, dizendo-lhes: Tudo que foi bom dura o tempo suficiente para ser inesquecível.

Maria de Lourdes Melo Prais

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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