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Uberaba, 16 de junho de 2021 -

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José Elias de Rezende Júnior

Cloroquina, tubaína e cidadania

A situação de calamidade pública decorrente da pandemia de coronavírus e a exploração política da crise acirraram uma suposta polarização ideológica em curso no país, a qual recentemente foi assim resumida pelo mandatário máximo da nação: quem é de direita toma cloroquina! Quem é de esquerda toma tubaína!

Os especialistas no estudo do fenômeno político reconhecem que o tema dificilmente é descrito com neutralidade e que as análises costumam vir carregadas com as inclinações emocionais dos observadores.

Na busca por um freio racional a toda esta carga emotiva da análise política, Rousseau, filósofo do século XVIII, em sua obra “Do contrato Social”, de grande influência nas democracias modernas, alertava que um povo que cuida mais de seus negócios particulares do que de sua própria liberdade está condenado a perecer.

O jusfilósofo italiano Bobbio, por sua vez, na obra “Direta e Esquerda”, de 1994, em busca de conceitos livres de toda aquela carga emocional, conclui que para a esquerda as desigualdades entre os homens são socialmente modificáveis, enquanto a direita está mais propensa a aceitar tais desigualdades, tidas como naturais.

Veja-se que ambas posições – direita e esquerda –, do ponto de vista ideológico, são respeitáveis e geram variadas formas de governo, sendo que a experiência demonstra que os abusos autoritários e a incompetência administrativa não são exclusividade de um ou outro espectro.

Voltando ao cenário político nacional à luz da racionalidade de Rousseau e Bobbio, propõe-se a premissa de que a polarização ideológica no Brasil é apenas aparente, eis que o cerne do debate não gira em torno de ideias, mas das personalidades de salvadores da pátria que alternam posições entre semideuses e demônios no imaginário popular. Acrescente-se a isto a existência de mais de trinta partidos políticos registrados perante o Tribunal Superior Eleitoral e o fato de que governos supostamente de direita ou de esquerda costumam ter mais semelhanças do que diferenças quando ocupam o poder.

Caso a racionalidade da análise política se personificasse na figura de um novo salvador da pátria, este bem poderia propor ao povo brasileiro que tome as rédeas do poder no qual está investido pela Constituição Federal, por meio dos diversos instrumentos de participação direta ali previstos – iniciativa popular, assembleias, associações, etc. – e que os indivíduos dediquem parte de seu tempo para cuidar dos interesses da coletividade em detrimento de suas atividades privadas ao invés de terceirizar integralmente a representação política, de modo a zelar pela eliminação do personalismo nos negócios públicos.

E então, o povo, graças a esse alvissareiro salvador, sem a necessidade de intermediários, escolheria, entre a cloroquina e a tubaína, o remédio universalmente eficaz contra todo tipo de usurpação do seu poder: CIDADANIA.

José Elias de Rezende Júnior
Advogado e professor universitário

jose.elias@rezenderezendeadvogados.adv.br
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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