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Uberaba, 16 de junho de 2021 -

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José Elias de Rezende Júnior

Saúde versus economia

Em tempos de coronavírus, um homem dirige seu confortável carro pelas ruas esvaziadas de uma cidade do Brasil, quando depara, num semáforo, com um jovem robusto e de aparência saudável que pede esmolas aos ocupantes dos poucos carros parados no local. O rapaz não chega até o carro do homem, o que causa certo alívio neste, posto que a miséria do jovem torna, de certa forma, a sua abundância um tanto quanto incômoda, até mesmo porque, pela aparência do garoto, não se trata de um mendigo profissional.

Viajando pelo espaço e pelo tempo, convido o leitor a seguir agora para a Prússia de 1862 (KARDEC, Allan. Revista Espírita 1862), onde uma pobre viúva, mãe de três filhos, entra numa padaria e pede insistentemente ao padeiro que lhe venda um pão fiado ou que lhe conceda uma libra de pão para os filhos famintos, o que é recusado pelo padeiro, que se dirige ao fundo do estabelecimento, momento em que a mulher subtrai o pão e se retira. Descoberto o furto e informado à polícia, um agente chega à casa da viúva no exato momento em que esta cortava o pão para os filhos. Embora constrangido pela dureza do padeiro, o agente informa que a senhora deveria acompanhá-lo até o comissário, o que a levou a cometer suicídio com a faca com a qual cortava o pão.

Acerca deste último fato, o Espírito de Lamennais, invocado em sessão na Sociedade Espírita de Paris, afirmou que “Deus julga as almas, mas também julga os tempos e as circunstâncias; julga as coisas forçadas e o desespero; julga o fundo e não a forma (....) Essa infeliz matou-se não por crime, mas por pudor, por medo da vergonha”. E acrescenta que o homem deveria ser capaz de desenvolver o dom de descobrir as coisas ocultas e enxergar que, nesta situação, a mulher é abençoada por Deus e o homem que negou o pão é amaldiçoado.

Pois bem, retornando ao ano de 2020 e ao fato mencionado inicialmente, agora sob a luz do tal dom proposto por Lamennais, percebe-se que nem sempre há uma relação direta entre a abundância material e a felicidade. De modo que não há como afirmar taxativamente, sob tal ótica, que o homem em seu carro é mais feliz que o jovem alçado à categoria de mendigo.

E, nesta mesma linha de raciocínio, a atual dicotomia saúde versus economia, a pobreza do debate que tem os interesses pessoais como foco e o destempero verbal dos debatedores dão a noção da indigência moral na qual se afundaram os homens, incapazes de perceber que a Covid-19 não veio trazer a falência do sistema de saúde ou da economia, mas mostrar à humanidade, concretamente, que “nem só de pão o homem viverá”.

Quanto aos personagens das duas histórias, ambas verídicas, diga-se de passagem, o homem em seu carro pode estar na mesma categoria do padeiro do século XIX, caso não perceba que a sua abundância representa, antes de prosperidade e benefício pessoal, compromisso com o próximo.

José Elias de Rezende Júnior
Advogado e professor universitário
jose.elias@rezenderezendeadvogados.adv.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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