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Uberaba, 25 de setembro de 2021 -

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Luiz Cláudio dos Reis Campos

“Meu prezado comunista”

Um dos grupos de WhatsApp que integro é composto por colegas de escola que frequentávamos há mais de quatro décadas. Éramos alunos colegiais à época, idos da década de 70. Depois, ao concluirmos a etapa secundarista, cada um foi cuidar de si, e, agora, a tecnologia tratou de nos reunir novamente, através das redes sociais. Não sei se ainda somos os mesmos, como disse Belchior, mas as aparências não enganam não. Confesso, pela experiência atual de quase mero observador do que se passa no grupo, sentir-me em conflito com o tempo e com o que restou de tudo lá atrás e de como nos utilizamos dos instrumentos que recebemos para interpretar o mundo e dar seguimento ao nosso espetáculo individual, munidos de tudo aquilo que nos foi ofertado, privilegiados que fomos, por estudar em uma escola de excelência. De volta ao século XXI, estamos alguns linkados virtualmente pelo popularmente chamado zap. Como já aqui registrei, pouco interajo, o que de fato não é, reconheço, a melhor maneira de participar de grupos. Mas tenho meus motivos. Recentemente, ousei postar um comentário na tentativa de canalizar para uma maior diversidade de assuntos e que pudéssemos ser mais plurais, porque o grupo estava como se o teclado do celular tivesse uma tecla só. Obtive uma única resposta de um colega, que fez, em tom jocoso, a seguinte menção: “meu prezado comunista”, que bom tê-lo por aqui... e seguiu com o resto que é desnecessário repetir. Confesso que não me surpreendi, mesmo porque esse tratamento às vezes me é dado atualmente. Já me acostumei. Aliás, quando passa um bom tempo sem essa referência, sinto até falta e me dá a sensação de que estou deixando de praticar boas ações. Considero uma distorção proposital a de chamar de comunista e comunismo tudo e todos que discordam do dito pensamento único que querem implantar. Jogam no maniqueísmo e evidenciam sua pobreza de argumento, com o objetivo de demonizar o que se contrapõe às narrativas de uma cartilha de bê-á-bás “analfabetizantes”. Observo que antes havia uma maior interação entre os integrantes do grupo, não sei se a baixa frequência se deve ao fato de o grupo ter se tornado linha auxiliar de um pensamento político, cujo assunto se tornou exclusivo, diuturnamente. Resta-me esclarecer que não sou comunista, mas tenho enorme apreço por vários que o são. Como democrata que sou, entendo que a democracia é onde se estabelece harmonicamente o convívio com a divergência de pensamento, com a pluralidade e diversidades e se rechaça veementemente o fascismo. Aos que devo chamar corretamente de prezados comunistas, minha reverência pelas obras e legados. Ave a Barão de Itararé, Candido Portinari, Caio Prado, Florestan Fernandes, Gianfrancesco Guarnieri, João Saldanha, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Pagu, Plínio Sampaio, Rachel de Queiroz, Taiguara, Albert Camus, Jean Paul Sartre, Pablo Picasso, Frida Kahlo, Pablo Neruda e tantos outros que, certamente, mais que duplicariam o tamanho deste despretensioso texto.

 

Luiz Cláudio dos Reis Campos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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