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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Falhamos todos, mas não somos todos culpados

Se hoje amargamos a triste, vergonhosa e inaceitável marca de mais de 300.000 mortes, mais de 3.000 ao dia, é porque falhamos todos. Uma parcela expressiva falhou por acompanhar fanaticamente o exemplo sórdido e dizimador do negacionismo analfabeto, responsável por milhares de óbitos. Outra parcela falhou por não reagir à altura com a necessária veemência para que ideias e ações justificassem a não omissão de muitos. Vidas perdidas escapadas pelos dedos das mãos zelosas de milhares de profissionais abnegados que, diante do quadro caótico e desolador, ainda muito fazem para tentar conter a escalada vertiginosa e exponencial de óbitos que poderiam ser evitados. Falhamos todos, uns pela opacidade e fanatismo, que deixam um legado macabro com a mão pesada da indiferença, do ódio e da ignorância; outros pela inércia, conveniência e comodismo. Falhamos todos. Um Congresso sem ingresso de fato na pauta que clama, grita e agoniza por ajuda e bom senso que, com a robusta quantia de mais de cinco centenas de membros, não consegue ecoar, a não ser pelos gritos isolados de poucas dezenas, uma voz de resistência e de amparo incondicional à ciência, à vida e na contestação de absurdos que foram pregados e ainda o são, ao longo da pandemia, que colaboram para a disseminação do vírus e, portanto, no aumento significativo da propagação da peste. Assim como o Brasil tem, de fato, uma dívida histórica para com a escravidão com suas mazelas e preconceitos que é impagável, porque não só pecuniária, mas, sobretudo, humana e moral, seguramente já contrai mais uma horrorosa dívida com seu povo vitimado por um massacre ocasionado por atitudes previamente elaboradas com o firme propósito de impor uma política desastrosa, danosa e macabra, empurrando para o risco de morte milhares e milhares de pessoas incensadas pela insensatez. Esta conta terá de ser cobrada, debitada e punida. Algum tribunal será palco. Não podemos falhar de novo. “É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio”. Albert Camus, autor de “A Peste”, que nos revela a fragilidade humana diante do realismo dramático de sua pequenez. Precisamos aprender com o alerta de Camus e reagir com um retumbante, incontido, sonoro e estrondoso Basta, muitos Bastas. Quando tudo passar, nada deve passar. Ou falhamos de novo e aí seremos todos culpados.

Luiz Cláudio dos Reis Campos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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