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Uberaba, 05 de agosto de 2020 -

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Luiz Cláudio dos Reis Campos

Quando ela passava

Passava como se pretendesse ser observada detalhadamente. Sabia de seus predicativos e sem constrangimento partilhava e sentia a apreciação dos olhares inebriados que fixavam em cada ponto e dobra de sua harmônica plástica. Desembaraçada, destemida, desenvolta, descontraída, desafiava a lógica, que, diante dela, tudo fazia sentido e tudo se justificava. Cada passo registrava uma intensa movimentação e inquietude de todos que observavam e se mostravam receptivos, disponíveis a integrar sua caminhada, seguindo-a servilmente, aficionados e inapelavelmente rendidos àquela magistral desenvoltura.

A sincronia irretocável, sintonia impecável soavam como sinfonia perfeita, seu arranjo chamava atenção pelo toque de arte indiscutível e resistia ao tempo e ao vento. Era como se rufassem o anúncio de mais uma tocata pelo renascimento do conteúdo e da forma que representam a esplêndida composição, ou seja, por fora bela viola, por dentro muito talento. Permanecia se apresentando com galhardia irreverente na medida ideal para chamar a atenção de maneira a magnetizar atração por onde circulava. Sua escalada em solo horizontal parecia elevar a todos a patamares de enaltecimento e graça, por vezes delírio de quem se excita e passa a não se conduzir com os pés no chão. Aplausos, palmas, acenos de espectadores embalados pela graça, magia, disciplina e também de um improviso de encher os olhos e sacudir a alma.

Do início ao fim, seu corpo inteiro integrava de ponta a ponta o ritmo cadenciado de quem se prepara para ofertar o que tem de melhor para encantar com os diversos estilos quando se apresenta. Sabia trajar o corpo todo com a apropriada indumentária pertinente a cada exibição. Não havia quem não comentasse um detalhe ou outro, seja do corpo inteiro ou de alguma parte. Não tinha como passar imperceptível. E ela sabia e nutria aquele embevecimento, convicta de propiciar momentos de fabulosa excitação coletiva, provocando delírio de muitos. Por um bom tempo era mais do que aguardada.

Comentada sempre quando encerrava o percurso, despertava o desejo de quero mais. Sabiam que haveria uma próxima e ela estaria da mesma forma pronta, preparada, disposta a mais um belo espetáculo. Com o corpo todo sintonizado, firme, vigoroso em alegoria. Ela era a tradicional, estimada, festejada e adorada Banda. E hoje veio me ocorrer a falar um pouco dela que já não há mais. Escutando a música, resolvi colocar na minha banda aqui uma lembrança da “Banda passar cantando coisas de amor”.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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