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Uberaba, 05 de agosto de 2020 -

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Luiz Cláudio dos Reis Campos

Tempo de mar

E ao fitar frente ao mar pus-me a observar o navio que longe ia em demorada e lenta singrada, que de repente do meu alcance desapareceu. Daí senti comprovado que a Terra é redonda e que o mundo dá muitas e muitas voltas. E nessas voltas que o mundo dá deparei com o futuro olhando pro infinito, onde o céu se encontra com o mar, e de lá, desse intangível horizonte, pude perceber que o futuro, por incerto, é consequência e não causa. É construção de todos. Não é posse de alguns. Cuidar do futuro é pretensão justa, entretanto, apenas pretensão, visto ser imprevisível. Agir no futuro é errar no tempo. O tempo é em boa medida a medida do sofrimento, da dificuldade, da tristeza, da dor. É escala dos nossos revezes. Quando estamos vivendo algo que nos deixa extremamente satisfeitos, alegres, felizes, não sabemos mensurar e nem sentir o tempo. O tempo da agonia é bem mais duradouro que o da alegria, muito embora as duas situações possamos vivenciá-las em idêntico intervalo de horas. Continuei fixo na linha do horizonte, mais embarcações desapareciam como que se tragadas pelas profundezas oceânicas, mas era apenas o sumiço do alcance da minha visão do ponto em que observava. O tempo estava fosco com borrões de nimbos. Percebi que a noite não viria nua, viria cortinada sem Vênus e Marte. Vestida de nuvens, encobriria seus mistérios e estrelas. Esse é o mar de nuvens que me convidou para viajar no tempo e eu aceitei. Continuei no embalo das ondas que me mareavam o pensamento em altos e baixos, na evolução das correntes que nos levam aos mais recônditos escaninhos de nossas sinapses, e quanto mais mergulhava, menos entendia o que está se passando com a tempestade mitológica que invadiu nossas praias continentais e adentrou sertão afora. Tempos de guerra são anos dobrados, tanto para quem morre nela ou para quem sobrevive. Justamente são esses estados da alma e do corpo que relativizam o tempo e sua duração. Para a Terra e o sistema solar há uma indiferença absoluta, porque cumprem suas trajetórias e voltas qual relógios suíços, com a frieza metódica que se espera desse magnífico instrumento. Época de poucas luzes e letras, de trogloditas em lugar de poliglotas. Passará. Enquanto isso ao mar me atenho e atento para não naufragar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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