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Uberaba, 18 de novembro de 2019 -

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Luiz Cláudio dos Reis Campos

Vidência

O maior e mais conhecido vidente de todos os tempos foi Nostradamus. Em sua esteira, adeptos de todo o planeta se arvoraram e arvoram-se nesse ofício de interpretar fatos, ações e coincidências para fundamentar suas previsões do porvir. Por força das tarologias, dos cabalismos, magias, astrologias e empirismos, criados ao longo da existência humana, muitas pessoas guiam suas vidas inspiradas em números, cartas e quiromancias, acreditando piamente, e aí é um direito de cada um, que o passado dita o presente e o presente revela nitidamente o futuro. Às vezes acertam umas e outras. Baseado nisto, alguns episódios da história recente revestem-se de analogias e simbolismos evocadores de dons premonitórios das diferentes linhas de videntes. Desde que haja boa vontade de fazer as mais complexas e as mais simples ilações tudo tem explicação para o que adveio e já estava escrito e para o que advirá porque também está escrito. 

Malabarismos à parte, ciência e lógica não credenciam nenhuma destas abstrações, posto que analisam o passado e o estudam no presente para melhorar o futuro. A ecótone, entre lógica e magia fragiliza o estudo acadêmico, retardando significativos avanços. Quando entra a superstição, a inteligência padece (mais ou menos assim Schopenhauer ditou). Todas as ciências firmam-se em postulados e teses oriundos da experimentação e observação. Não se aventuram a previsões que não estejam calcadas em análises e dados fundamentados em prática e experimentação, porque senão tornam-se panacéia e placebo indicando caminhos que não se sabe onde vai dar. No campo das previsões são poucas as áreas do conhecimento que preconizam o futuro. Exemplo: a meteorologia e a sismologia têm esta função e, na maioria das vezes, acertam o comportamento da natureza (terremotos e tsunamis à parte). O futuro, por incerto, é consequência e não causa. É construção de todos. Não é posse de alguns. Agir no futuro é errar no tempo. Cuidar do futuro é pretensão justa, entretanto apenas pretensão, visto ser imprevisível. “Sou inquieta e áspera e desesperançada. Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Meu esforço: trazer agora o futuro para já”. Clarice Lispector. Quem dera assim fosse possível e o futuro a nós também pertenceria e o tempo seria uma mera fantasia. 

(*) engenheiro
lucrc@terra.com.br

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