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Uberaba, 21 de agosto de 2019 -

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Ana María B.

Francesco Francio Mazza fala sobre as eleições europeias

Além de diretor de documentários, redator de curtas metragens e autor de programas de televisão de sucesso, Francesco Francio Mazza é acima de tudo um escritor.

Os seus artigos, publicados numa variedade de jornais e sites Europeus, nunca passam despercebidos: em 2016, a defesa de uma caricatura satírica do semanário francês Charlie Hebdo, indignou a opinião pública italiana e foi compartilhada centenas de milhares de vezes nas redes sociais.

O sucesso do artigo foi tal que Charlie o convidou para seu escritório editorial em Paris, que, devido ao terrível ataque terrorista que o semanário sofreu, está localizado num lugar secreto onde jamais nenhum jornalista entrou. A reportagem de Mazza apareceu na capa do jornal francês "Liberación" e no semanário italiano "Oggi".

Independente e sem preconceitos ideológicos, Francesco Francio Mazza é uma das poucas vozes livres no jornalismo italiano de hoje. Poucas semanas antes das eleições europeias, que segundo muitos serão "as mais importantes da história", coletamos a sua opinião.

Na sua opinião, haverá uma temida afirmação das chamadas forças populistas de direita?

"Populismo" é um termo muito ambíguo. Obviamente, Donald Trump é um populista, tal como Luigi Di Maio e Matteo Salvini, líderes dos dois partidos que agora dominam em Itália. No entanto, acho difícil imaginar um populista maior que Emmanuel Macron, que claramente deveria estar no lado oposto. Os mesmos Bernie Sanders e Jeremy Corbyn, promotores de uma plataforma política de esquerda radical são, para todos os efeitos, dois líderes populistas. O populismo é a essência da política atual. 

Por quê? 

O populismo tem a ver com a retórica, com a propaganda em si mesma, com ações simbólicas que são usadas para obter "likes" imediatos nas redes sociais, mas deixa de lado os problemas que são de longo prazo. Itália tem um governo populista, só é preciso acompanhar o que o ministro Salvini escreve diariamente na media social. 

Mas a agenda política e a linguagem usada hoje em dia pela esquerda radical são idênticas: quando Corbyn em Inglaterra, se compromete a nacionalizar os bancos e os caminhos de ferro ou quando Sanders fala de assistência médica gratuita para todos sem apresentar uma parte do plano financeiro para comprová-lo. Ambos se comportam exatamente como os seus opositores populistas. 

Então nas próximas eleições, ganhe um partido ou outro, não vai realmente mudar muito na Europa? 

A Europa está a passar por uma fase de declínio estrutural e irreversível, para a qual não há saída no atual sistema capitalista. Ao longo da segunda metade do século XX, o modelo de referência usado pelos governos europeus era muito simples: os partidos doavam generosamente dinheiro público, aumentando excessivamente a dívida pública e em troca ganhavam votos. Agora esse sistema acabou, porque a dívida não pode aumentar mais. A política entrou, portanto, em crise e ninguém sabe o que inventar agora. 

E o populismo não pode ser considerado uma solução? 

O populismo é um remendo retórico: como os populistas são incapazes de enfrentar a questão econômica que, como Marx disse, é a única coisa que importa e do que todo mundo depende, tentam atiçar o fogo explorando os sentimentos e as emoções das pessoas. Alguns, graças à exploração do fenômeno da imigração, exploram a raiva e o ressentimento, como Trump ou Salvini, outros exploram o idealismo e o desejo de justiça, como Corbyn ou Macron, mas a substância não muda. 

Ninguém é capaz de oferecer soluções concretas, porque esta não é uma simples crise do sistema: trata-se de uma crise do Sistema, uma verdadeira mudança de horizonte à qual os antigos governantes europeus,  acostumados a pensar com a lógica do século passado, não se acostumam nem nunca o farão. A noite europeia, independentemente do resultado das eleições, será ainda muito longa.

 

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