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Violão (Teje preso)

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25/06/2022 - 00:00:00. - Por Osmar Baroni

Garanto, com conhecimento de causa, não ser nada difícil encontrar entre os afeiçoados do violão, que nas mãos de seus tutores nos levam às lágrimas, quer de alegria ou solidão, quem não tenha vivido momentos assim, principalmente se a seresta tenha como cenário a lua cheia. Contudo, uma dessas, realizada nesse mundão brasileiro, tomou um rumo inusitado...

Em 1955, em Campina Grande (Paraíba), um grupo de boêmios fazia serenata, quando chegou a polícia e apreendeu o violão. Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços de um advogado, Ronaldo Cunha Lima, recém-egresso da faculdade e que também curtia serestas. Ele peticiou em juízo a liberação do violão, assim redigindo:

Habeas Pinho

Exmo. Sr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta comarca:

O instrumento do crime que aqui se arrola / Neste processo de contravenção / Não é faca, revólver nem pistola / É simplesmente, doutor, um violão

 

Um violão, doutor, que na verdade / Não matou nem feriu um cidadão / Feriu, sim, a sensibilidade / De quem o ouviu vibrar na solidão

 

O violão é sempre uma ternura, / Instrumento de amor e de saudade / Ao crime ele nunca se mistura / Inexiste entre eles afinidade

 

O violão é próprio dos cantores / Dos menestréis de alma enternecida / Que cantam as mágoas e que povoam a vida / Sufocando suas próprias dores

 

Seu viver, como o nosso, é transitório / Porém seu destino se perpetua / Ele nasceu para cantar na rua / E não para ser arquivo de cartório

 

Mande soltá-lo pelo amor da noite / Que se sente vazia em suas horas / Para que volte a sentir o terno açoite / De suas cordas leves e sonoras

 

Libere o violão, Doutor Juiz / Em nome da Justiça e do Direito / É crime, porventura, o infeliz / Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

 

Será crime, afinal, será pecado, / Será delito de tão vis horrores, / Perambular na rua um desgraçado / Derramando na rua as suas dores?

 

É o apelo que aqui lhe dirigimos, / Na certeza do seu acolhimento / Juntando esta petição aos autos nós pedimos / E pedimos também deferimento.

 

O Juiz Artur Mousa, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

 

“Para que eu não carregue / Muito remorso no coração, / Determino que seja entregue / Ao seu dono o malfadado violão.”

 

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima ingressou na política, sendo eleito deputado estadual, deputado federal, prefeito de Campina Grande, senador e governador do Estado.

 

Osmar Baroni

Cirurgião-dentista

Integrante da Academia de Letras do Triângulo Mineiro

chorocultura@yahoo.com.br

 

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