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Santa ignorância

08/08/2020 - 07:08:03. - Por Ricardo Cavalcante Motta


Tive um mestre que dizia "A ignorância é atrevida." A propósito, não há nada mais atrevido que a adolescência. Portanto, muito ligada à ignorância. Com impulsos ousados, na cegueira de se achar eterno e incalculavelmente distante da velhice, em regra sem ter recebido ainda qualquer esbarrão da vida, o adolescente alimenta a inocente expectativa de que sabe tudo. Mas não há nada mais imbecil que imaginar que se sabe tudo. Também existem os que dizem que se odeiam por errar.

É de se pensar, devem se odiar demais! Afinal, o erro é inerente ao viver. É do reconhecimento do erro que mais se aprende. Contudo, seria injusto simplesmente espinafrar a adolescência sem ressaltar o lado bom dessa fase barroca da vida. Convenhamos. O confronto audacioso a que se propõe o jovem em autoafirmação motiva os mais experientes a revisão de temas, a reciclagem de ser, numa renovação do pensar ou mesmo do modo de abordar algum conteúdo.

Com efeito, sempre estamos rindo do nós de ontem, a não ser que estejamos estagnados. Aos vinte anos rindo de como agíamos aos quinze. Aos trinta rindo de nós aos vinte, aos quarenta rindo de nós aos trinta, e assim sucessivamente até o fim. Basta atenta reflexão para se sentir algo mais maduro. 

Ainda que se tenha acertado no resultado, no objetivo, pondera-se quanto a possibilidade de caminhos menos sinuosos, menos perigosos, menos pesados, ou mesmo quanto ao uso inadequado de atalhos. Ri-se da aflição que sentiu por pouca coisa, do medo excessivo pela insegurança, ou da própria ousadia demasiada.

É porque devemos estar sempre nos polindo e evoluindo. Essa é a regra. Estupidez é paralisar em dogmas definitivos, muitas vezes herdados de um passado há muito superado. A consciência da ignorância é uma dádiva, afinal ninguém jamais saberá de modo estático e definitivo. Tudo se renova como o dia a cada aurora. Sábio é se reconhecer ignorante, por mais paradoxal que possa parecer. Essa é a consciência que nos progride da adolescência. Em verdade, estamos fadados à bênção da ignorância eterna. É a humilde certeza disso que transforma o atrevimento em crescimento. Santa ignorância!  

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