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Insignificâncias

A gotinha de água escorre da folha verde e se desfaz em mil fragmentos ao bater no chão

15/03/2020 - 00:00:00. - Por Renato Muniz Barretto de Carvalho

A gotinha d’água escorre da folha verde e se desfaz em mil fragmentos ao bater no chão. O vento balança a árvore e infinitas gotículas umedecem o ar. Dos galhos às raízes, tudo se mexe. Um passarinho minúsculo canta escondido numa moita densa e úmida nos arredores. No alto da copa, um pica-pau perfura um oco no tronco. Tímido, ele se esconde à aproximação de um casal de namorados. Mas tudo isso é insignificante, o que importa é aumentar a produção de grãos para exportação, impulsionar a venda de insumos e expandir a fronteira agrícola. 

O casal se aproxima da árvore em busca de aconchego; mãos dadas, gestos delicados. Os olhares e os corpos sugerem que estão apaixonados. Sentam-se na grama, debaixo da copa generosa e trocam carinhos. O frescor da sombra os protege do calor, abriga seus sonhos, fortalece laços. Fazem planos, confiantes no futuro. Mas tudo isso é insignificante, o que importa é a existência de mão de obra farta para a continuidade do crescimento econômico. Significativo é poder ter quem trabalhe com esforço, de sol a sol, para a grandeza da nação.

A moça pega um livro na bolsa e se deita no colo do companheiro. Abre o livro e lê apaixonada e compulsivamente um romance. Não desgruda os olhos das páginas. Se pudesse, terminaria a leitura naquela tarde. O rapaz não tem pressa e, enquanto contempla a paisagem, passa as mãos suaves nos cabelos da namorada. Mas isso tudo é insignificante: a leitura, o livro, o enredo, o amor e a paz que esse cenário traz. O que importa é melhorar os índices de produtividade, é diminuir as despesas do Estado, é garantir o lucro e a remuneração dos investidores estrangeiros.

Ali perto, a água escoa ligeira no riacho, circula por entre as pedras, cristalina, límpida, purificando-se à medida que flui terreno abaixo. O trajeto produz borbulhas; som que embala a leitura e os pensamentos. Libélulas fazem rasantes na água, borboletas procuram flores coloridas. Mas nada disso significa qualquer coisa importante. Relevante é saber o comportamento do mercado, acompanhar a oscilação do preço das ações na bolsa de valores. É preciso seguir os analistas econômicos da TV, entender o jogo da especulação imobiliária, os índices de desemprego e as últimas tendências do câmbio. 

Sobre o aparador junto à janela há um vasinho de violetas com meia dúzia de flores. Cada uma tem um pontinho amarelo que se destaca com suavidade no conjunto. Ao lado, há um tabuleiro de xadrez e alguns livros: poesias, romances, literatura infantil, contos e ensaios de crítica sociológica. Nada disso importa. Muitos defendem censurar aquilo que poderia acarretar esperança para os jovens. Muitos são favoráveis ao controle dos desejos e dos sonhos, à vigilância política e religiosa sobre os insubmissos e os apaixonados. Inversão de valores numa espiral maluca de ódio: desinformação ou insensatez?

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