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A caneta extraviada

No domingo, acordei cedo, tomei o café da manhã e fui procurar algo pra ler

09/02/2020 - 00:00:00. - Por Renato Muniz Barretto de Carvalho

No domingo, acordei cedo, tomei o café da manhã e fui procurar algo pra ler. Como não achei o que me agradasse, fui mexer numa gaveta de guardados e encontrei uma velha caneta tinteiro, dos tempos do ginásio, nos agitados anos 1960. Era uma caneta sofisticada, elegante, que me distraiu durante boa parte da manhã. 

Escrever com uma caneta dessas era mais do que juntar letras num pedaço de papel, escolher palavras e formar frases com algum significado. As ideias não dependiam da caneta, mas ela influenciava a escrita, sem dúvida! É claro que um pedaço de carvão nas mãos de um artista treinado para observar a realidade, com domínio técnico, pode resultar num belo quadro. Por outro lado, o mesmo reles pedaço de carvão ou a mais bonita caneta nas mãos de quem não está nem aí com o mundo não servirá de nada, podendo até causar estragos e provocar tristezas.

Com a caneta nas mãos, tentando me lembrar de como fazia para colocar a tinta, dos borrões que manchavam o papel, a dificuldade que era quando acabava a tinta no meio do caminho, me perguntei quando foi que deixei a caneta de lado, como aquela bonita peça foi parar no fundo da gaveta? Nem percebi, de tão rápido. Qual foi o caminho percorrido entre a velha tinteiro, passando pelas esferográficas, até a tela touch screen?

Das frases longas e elaboradas às frases curtas, emoticons e figurinhas, será que a escrita e o entendimento da realidade saíram prejudicados? A transmissão das ideias não ficou comprometida? Sob o ponto de vista do consumo, nunca se vendeu tanta caneta, principalmente as esferográficas. Qualquer um pode empunhar uma caneta hoje em dia. A produção em larga escala levou ao preço baixo. Talvez o objetivo fosse vender mais canetas, e não desenvolver o pensamento crítico. Quais os efeitos disso na escrita e na produção de textos? 

Às vezes, ainda encontro canetas tinteiros em uso, cada vez menos, e, geralmente, nas mãos dos mais velhos. Ainda existe tinta à venda nas papelarias. Eu gostava da azul lavável, em vidrinhos de 50ml ou em cartuchos, que facilitaram o uso e resolveram o problema da tinta acabar no meio do caminho. Não estou propondo a volta das velhas canetas; nada de saudosismo ou retrocessos, a preocupação é com o futuro. Mas era bom abrir as agendas de cada ano com a tinteiro, como uma solenidade. Depois, com a correria cotidiana, só a anônima esferográfica pra dar conta dos infindáveis compromissos. Não gosto das agendas eletrônicas. Não confio nelas, talvez seja ranço — ou vai ver eu tenho dúvidas quanto à segurança. E mais: gosto de conservar as agendas e tenho receio de arquivar informações digitalmente, elas se perdem em meio à poeira cósmica do universo. Já as antigas agendas, eu sei onde estão. Quanto à caneta, acabei de encontrar.

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