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Lágrimas

Há momentos em que se tem vontade de chorar sem identificar a causa

02/11/2019 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

Há momentos em que se tem vontade de chorar sem identificar a causa. Uma vontade silenciosa, sem motivo aparente, insistente, consistente, perene e envolvente. Todavia não se decifra o estímulo. E ela vai ficando mais viva e latente. Somente a identifica como tristeza. Foge de pesquisar a causa, prefere ignorar. A insistência se mantém até que define a melancolia e aquele nó guardado lá no peito, que desceu do gogó, revela-se. Contudo, recusa o choro, afinal, chorar não é vitorioso, é sinal de perda. Não absorve a ideia de derrota, o que não se admite nem mesmo em reservado pensamento. Esquiva-se. Recusa reconhecer infortúnio que gera dor. Entrega-se à depressão, mas não chora, reluta. Acusa o vazio como causa para não recepcionar que está repleto de dor. Simplesmente nega ser frágil, humano, vulnerável e não deixa verterem as lágrimas para drenar o efeito da dor que sente em face do mau que gerou a incuta vontade reprimida de chorar. Guarda, regula, reflete, engole, suspira, respira, sua, contorna, retorna, repensa, sofre, até adoece, mas nega-se as lágrimas para desviar do reconhecimento de sua situação de gente que perde. Hoje poucos admitem perder. Imbui-se da ideia de que tem sempre que vencer, ou parecer que está sempre no alto, inabalável, superior. Reconhece que sofre, mas seu orgulho nega o fato gerador. É que a dor pode se estabelecer em qualquer humano que de aço não é. Resiste e resiste até que chora. Verte águas como o mar...então se salva do infarto e de outras de mazelas. Chora com lágrimas da alma e entende que perdas são para se admitir, sem sucumbir ao orgulho de não chorar. Compreende, enfim, que tem que chorar quando necessário. É humilde, é humano, é natural.

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