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Quando criança ouvia sempre dos mais velhos a charada em que perguntavam se vivia para comer

21/09/2019 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

Quando criança ouvia sempre dos mais velhos a charada em que perguntavam se vivia para comer ou se comia para viver. A intriga tomava conta da meninada para decifrar o resultado da equação enigmática. Pois bem. Outro dia deparei na prática com a situação. Em uma família simples e digna, a mãe era a coluna principal de referência e condução. Indicava o norte em quase tudo e tinha planos preciosos de êxito para seus filhos, por trilha honesta. Apontou os estudos como caminho catalisador da elevação social e eles se dedicaram firme e conscientemente. Deixou claro, teriam que se formar em escola pública na sua cidade, pois não poderia custear despesa noutra situação. Inspirou como vocação que se formassem em medicina, o que se deu. Três médicos dedicados e respeitados. Plano cumprido. Naturalmente os frutos do trabalho vieram e daí puderam buscar novos sonhos. Com um deles se deu uma situação especial. Tinha quimeras de criança em lidar com cavalos. Seu hobby passou a ser a criação destes animais de pura raça. Contudo, ficava sempre preocupado para não ser perdulário, em face da disciplina herdada por sua regrada criação. Mas criar cavalos não se tratava de prática barata. Foi acumulando animais e despesas, embora pudesse custear. Enfim, era seu deleite. Certa feita, entusiasmado, adquiriu um garanhão de alto custo. Ficou muito contente. No entanto, ainda antes de terminar de pagar, o corcel foi acometido de uma cólica severa, com extremo risco de morrer. Como de costume, foi se entrevistar com a experiente mãe, até para sentir sua percepção do contexto. Atônito, apresentou seu lamento à mãe e completou: "Mãe, se esse animal morrer, paro com isso e vendo todos". Para sua surpresa, a resposta serena da sábia matriarca resumiu-se numa única frase interrogativa: "E então, meu filho, a partir daí você vai só trabalhar?". O filho ouviu em silêncio, refletiu e, encantado, respondeu à mãe que havia compreendido. Saiu aliviado. Qualquer que fosse o resultado da enfermidade do animal, preservaria sua alegria, seu prazer, parte da razão e do propósito de tanto esforço para ali chegar. Felizmente, consta que, além dos sonhos, o cavalo também sobreviveu.

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