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A democracia renegada

A figura do deputado Eduardo Bolsonaro visitando o pai no hospital, portando e ostentando na cintura uma arma de fogo

13/09/2019 - 00:00:00. - Por Aristóteles Atheniense

A figura do deputado Eduardo Bolsonaro visitando o pai no hospital, portando e ostentando na cintura uma arma de fogo, é a imagem mais deprimente da cultura da violência que infesta o nosso País. 

Para um candidato à nossa embaixada em Washington, a exibição de sua valentia demonstra apenas temperamento arrojado, disposto a repelir eventual ataque ao presidente convalescente.

Não bastasse essa temerária exibição, o seu irmão Carlos, vereador no Rio de Janeiro, tido como responsável pela estratégia do pai nas redes sociais, adiantou que: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e se isso acontecer”.

A versão de que apenas “deu uma justificativa aos que cobram mudanças urgentes”, não passa de um remendo ao seu pronunciamento anterior, em face das repercussões negativas que teve no Congresso e no Planalto.

O valor que o presidente dispensa ao seu “garoto”, por mais absurdo que sejam suas manifestações, já foi proclamado em outra oportunidade: “Não por acaso, muitos que nada ou nunca fizeram para o Brasil, querem afastá-lo de mim”.

O medo é a força que contamina a nossa realidade, tornando-nos incapazes de termos confiança mesmo naquilo que realizamos. Como a verdade amedronta mais que a mentira, aqueles que não prezam a realidade valem-se de todos os meios para desfazer os fatos, como se não passassem de meras ficções.

Em 1990, Jair Bolsonaro externou seu apoio ao emprego da tortura e do “pau de arara”, aduzindo: ‘Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil! Começando com FHC! Não deixa ele de fora, não!”. O trecho é de uma entrevista do então deputado pelo antigo Partido Progressista Reformador (PPR). A gravação foi ao ar na TV Bandeirantes do Rio.

Não era, pois, de se estranhar que Eduardo, em julho do ano passado, num curso preparatório para a Polícia Federal, afirmasse que “para fechar o STF bastariam um soldado e um cabo”. Neste mesmo diapasão, seu pai, num discurso improvisado para fuzileiros navais em um quartel da Marinha, proclamou que: “A democracia e a liberdade dependem das Forças Armadas”.

Em face dessas apreensivas declarações é compreensível o apoio que Jair Bolsonaro deu às ditaduras de Pinochet e Stroessner, e a apologia que faz ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reverenciando-o como “herói” nacional.

O culto à violência é o caminho mais curto para se chegar ao poder, desfrutando das vantagens que este resultado proporciona. Somente na democracia estaremos aptos a conhecer melhor os nossos semelhantes, auscultando as suas apreensões e tolerando os seus defeitos.

Se alguém antecipa que “por vias democráticas” não lograremos transformar o Brasil, ao contrário do que fora prometido na campanha eleitoral, revela, com esse pessimismo, que não acredita em governo “que seja do povo, pelo povo e para o povo”, como preconizou Abraham Lincoln na oração de Gettysburg.

A liberdade, dizia Cervantes ao seu escudeiro Sancho Pança, “é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida”. Assim, o pior uso que se pode fazer da liberdade é abdicar dela e para conservá-la nem mesmo a morte, que é o último dos males, pode ser evitada.

Quanto à mentira, sendo uma desgraça, revela alma vil, espírito apoucado e caráter viciado.

A despeito das afirmativas que a família Bolsonaro vem difundindo, como se estivesse prestando um serviço à Pátria, cabe renovar a advertência de Santo Agostinho: “O pior dos homens é aquele que, sendo mau, quer passar por bom; sendo infame, fala de virtude e de pundonor”. 

(*) Advogado, conselheiro nato da OAB e diretor do IAB

 

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