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Que cantem as saracuras!

Reporto-me a alguns fatos que dizem respeito a saracuras, desertoras da natureza desmatada

12/09/2019 - 00:00:00. - Por Vânia Maria Resende

Reporto-me a alguns fatos que dizem respeito a saracuras, desertoras da natureza desmatada, que cantam na cidade. Um desses fatos, particularmente ridículo, é a coleta de assinaturas para um abaixo-assinado que correu numa dada vizinhança – palco das ações. A narração se compõe de quatro cenas; na última, os fatos darão lugar à imaginação. Tudo começa quando um som estranho é ouvido na madrugada, até que seja identificado como canto de saracuras. Desnorteadas, elas vieram parar na cidade, desde que a mata, seu habitat até então, foi dominada pela exploração, para lucro econômico. Elas aportaram em um lugar onde encontraram árvores e plantas em restos de quintais. Poucos moradores se alegraram; a maioria sentiu seu sono perturbado e não gostou. Ouvi-las no amanhecer mata a saudade do canto dos galos que se prolongava no infinito, perdia-se no escuro, ecoando no espaço; o espetáculo da sinfonia dos sons desdobrados despareceu das cidades que não têm mais ares rurais. As saracuras vieram como galos acordar o silêncio, e a vizinhança se aborreceu por falta de senso poético. 

O primeiro vizinho que aparece nesta história tem papel importante. É um engenheiro de coração cheio de ternura – amante da natureza, dedicado a bonsais, pintura em casca de ovo e a outras coisas criativas. Ele acolheu as saracuras gratuitamente, não com interesse em que cantassem no seu quintal. Sentia-se responsável por ajudar a mantê-las vivas. Se elas foram expulsas por causa da devastação ambiental inconsequente, na certa ele queria reparar, minimamente, o dano que sofreram. Infelizmente, ele já se foi desta vida, e faz muita falta; é um a menos a proteger as aves desabrigadas.

O segundo vizinho, ao contrário do primeiro, atuou conturbando o ambiente. Como garotos de gerações passadas arremessavam pedra com estilingue para matar passarinho, ele se serviu, com juízo adulto, de foguetes como arma. Sua guerra com as saracuras tornou explícita a contradição do plano que ele arquitetou com razão fria, pois como comparar o canto delas com o som perturbador, de estouro de pólvora? Seu plano visava resolver o seu problema: assustar aquelas intrusas da cidade e do seu bem-estar, para que fossem embora. Ele não pensou no porquê de elas terem aterrissado ali, refugiadas; que fossem buscar arrego em outras redondezas!

Se a narração bíblica das origens fosse reescrita, se alteraria a visão edênica e Deus não descansaria no sétimo dia, antevendo o abuso do poder do homem sobre o meio ambiente e os outros seres da criação. Diante da realidade atual que vitima saracuras e outros bichos e vastas vegetações, Ele renegaria a insensatez da criatura humana que ganha expressão ridícula na ação da terceira vizinha. Responsável pelo tal abaixo-assinado, ela assumiu a providência de bater de porta em porta, militando pela retirada, do seu entorno, das aves que a perturbam.

A cena daqui pra frente só pode ser imaginada. As saracuras são intimadas por um oficial de justiça. Comparecem a um rígido tribunal, com bicos fechados, algemadas; são conduzidas ao banco do réu por policiais. O juiz que vai julgá-las nunca foi injustiçado por falta de casa própria (além disso, tem auxílio moradia). Como não há lei para aplicar no processo inédito, usa medida excepcional, para atribuir culpa às aves e aprisioná-las em gaiolas. Punindo-as, atende os poderosos e a ordem volta à cidade, para que o sono dos sem culpa não seja mais perturbado. A justiça se faz segundo o interesse de uma parte e contra o direito da outra. Não pesa na sentença o fato de que as saracuras já haviam sofrido dura pena, tendo perdido a morada natural.

A decisão judicial não foi razoável, desvinculada de sentido social, econômico, ambiental e de questões filosóficas como estas: de onde vieram bichos e homens e para onde estão indo?, como era o começo e como será o fim? Impôs uma falsa ordem em função da alegada desordem; não foi justa com a parte que se tornou ré, mesmo sendo a vítima na perda da casa; não responsabilizou os culpados, de fato, os que destruíram onde elas moravam. A História segue seu caminho, questionável quando vence quem pode mais. 

(*) Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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