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Uberaba, 21 de setembro de 2019 -

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Professor Leonardo Smeele

Durante minhas pesquisas no Arquivo Público de Uberaba, deparei-me inúmeras vezes com notícias do saudoso

05/09/2019 - 00:00:00. - Por Olga Maria Frange de Oliveira

Durante minhas pesquisas no Arquivo Público de Uberaba, deparei-me inúmeras vezes com notícias do saudoso professor Leonardo Smeele. Tive o privilégio de conhecê-lo em casa de D. Odette Carvalho de Camargos, de quem ele era um grande amigo. Uma figura inconfundível, com seus traços marcantes que denunciavam sua origem holandesa.

Nasceu em 1907 na cidade de Haia, capital da Holanda do Sul e sede do governo, e fez seus estudos na Holanda e na Bélgica. Desde a juventude revelou-se um espírito indômito, desejoso de conhecer outras terras. E foi essa índole aventureira que o trouxe para o Brasil em 1937. Fixou-se inicialmente na cidade paranaense de Castro, onde a colônia neerlandesa era numerosa. Lá permaneceu cerca de quatro anos, como professor de línguas no Ginásio local.

Na fase final da 2ª Grande Guerra Mundial, em 1942, resolveu alistar-se no Exército Livre Holandês. Deixou o Brasil e retornou à Europa. Passou pelo Canadá e seguiu para a Inglaterra, onde prosseguiu seus estudos na Universidade de Cambridge.

Ao término da guerra, em 1945, a saudade o trouxe de volta ao Brasil. Durante mais de uma década exerceu seu ofício de professor de línguas em várias cidades, como: Campo Grande, Pedro Leopoldo, Patrocínio e Belo Horizonte. Até que em 1958 foi convidado a fundar o Instituto Cultural Brasil Estados Unidos em Uberaba.

Dessa forma, o ICBEU tornou-se a primeira escola de idiomas fundada em nossa cidade e reconhecida pela Embaixada Americana. Nesta instituição atuou como professor e diretor. Dinâmico e homem de visão, vinculou seu nome a uma série de eventos culturais, incrementando o setor com concertos relevantes, trazendo inúmeros concertistas para se apresentarem nos palcos uberabenses. Foram apresentações de músicos de renome internacional que movimentaram os salões do Jockey Club de Uberaba e da Sociedade Sírio-Libanesa.

Sempre teve a delicadeza de vincular o nome do Instituto Musical Uberabense aos eventos que promovia, dando seu valioso apoio a este prestigiado estabelecimento, dirigido pela saudosa D. Odette Camargos, a quem muito admirava.

Como todo europeu, era apaixonado pela música. Lembro-me de ouvir o prof. Leonardo e D. Odette em duos primorosos de flauta-doce, nos idos da década de 1960. Foi ele quem ensinou D. Odette a manusear a flauta, além de doar à talentosa aluna muitas partituras dos melhores autores para este instrumento.

Leonardo chegou a oferecer pelo ICBEU uma bolsa de estudos para a jovem uberlandense Zulmira Maria Oliveira de Freitas, promissora aluna do 6º ano do curso de piano do maestro Alberto Frateschi. A talentosa pianista foi encaminhada ao conceituado Conservatório Musical da cidade de Muscatine, no Estado de Iowa, nos Estados Unidos, em 1960. O belo gesto repercutiu amplamente na imprensa local.

Um intelectual no amplo sentido da palavra, foi contista, poeta, cronista e articulista na imprensa uberabense. Teve suas poesias e artigos publicados em jornais da Holanda, Curaçau, Inglaterra e Estados Unidos. Pertenceu à Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira nº 30, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Souza. Deixou algumas obras inéditas em forma de poemas, uma novela de ficção científica e um livro de memórias intitulado “Canoa Viajada”.

Faleceu em 1976 em nossa cidade, após 18 anos exercendo seu ofício com a modéstia, a discrição, a dignidade e o saber que são altas qualidades de sua figura humana.

Em 1982, o Coral Artístico Uberabense, sob a regência de D. Odette, apresentou a Missa in honorem da Beatissimae Virginis Mariae, consolatricis afflictorum, para coro a duas vozes, de Leonardo Smeele. Esta inspirada obra sacra composta em 1951, antes do prof. Smeele vir para Uberaba, possibilitou ao Coral Artístico Uberabense prestar uma homenagem póstuma muito especial ao emérito professor Leonardus Paulus Smeele, em apresentação de gala na Igreja de São Domingos.

Os que o conheceram continuam a se recordar de sua pessoa, mesmo sem saberem por onde anda, em sua viagem transcendental. Leonardo Smeele, acima de todos os valores, deixou-nos a saudade de sua riqueza humana. 

(*) Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba e ex-diretora-geral da Fundação Cultural de Uberaba

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