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Melado e Poder

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza, acerta mais uma vez o ditado popular

25/08/2019 - 00:00:00. - Por Márcia Moreno Campos

“Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, acerta mais uma vez o ditado popular. É assim que se comportam os detentores de poder que dele se locupletam como se ungidos fossem, e por vezes seguidas passam do limite razoável que distingue um líder de um aficionado qualquer. O que deveria ser um fardo de responsabilidade, já que os poderosos comandam os destinos de muitas vidas, infelizmente se transforma em um alvará para a prática de atos voluntariosos, sejam os autores democraticamente eleitos ou não.

Fiquemos com o exemplo brasileiro. O Presidente do Brasil jurou em campanha ser contra a reeleição. Passados 90 dias de governo, mudou de ideia e já é e se comporta como candidato nas eleições de 2022. Em uma declaração recente, expressou o que está sentindo em relação ao mandato que lhe foi outorgado pela maioria: “Quem manda sou eu, vou deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu”. Será de que liberdade ele está falando, já que são muitos os casos de interferência presidencial em várias pastas e assuntos. Cito alguns: 1 – ele mandou demitir o diretor de publicidade do Banco do Brasil por discordar de uma propaganda com atores que representavam a diversidade sexual e racial; 2 – o Ibama exonerou o fiscal que o multou em 2012 quando ainda era deputado federal, por pesca ilegal; 3 – insatisfeito com os dados científicos de desmatamento, exonerou o presidente do Inpe, responsável pela divulgação; 4 – interferiu diretamente na Agência Nacional de Cinema (Ancine), selecionando os filmes que podem receber recursos públicos; 5 – desconfortável com a fiscalização sobre um de seus filhos, que ele vê como algo pessoal, demitiu o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, além de pedir a cabeça do superintendente da Receita no mesmo Estado, que se recusou a aceitar indicações políticas; 6 – contrariado com a atuação do Coaf, o órgão financeiro do Estado, que na campanha era a principal bandeira anticorrupção, também por motivos familiares, decidiu transferi-lo para o Banco Central como justificativa para demitir o seu chefe. São muitos os casos que demonstram que o Presidente não gosta de ser contrariado. O poder é dele, exercido com orgulho e gosto com uma caneta BIC.

O alerta vem de Cervantes, o autor de Dom Quixote: “Quem se julga imbuído da verdade pode trazer mais desgraça do que felicidade àqueles que diz defender”.

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