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Uberaba, 17 de agosto de 2019 -

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Agora é tarde

A vida é assim tão simples, mas a fazemos complicada. Disse o Mestre

10/08/2019 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

A vida é assim tão simples, mas a fazemos complicada. Disse o Mestre, "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". Parece singelo, só parece. Poluídos como somos, não conseguimos praticar. Nem o ateu objetivo, que costuma chamar Deus de natureza, de regência universal, não consegue aplicar a regra da harmonia, embora dela também necessite. Todos no mesmo barco. Enfim, dependemos da eficiência do amor, seja por que ângulo, religioso, ideológico, psicológico ou natural. Em qualquer giro desse mundo sereno e severo a vida segue sua lei, física ou moral, sob a regência da equação do amor, com seus particulares e peculiares resultados. É certo que para toda ação há uma reação. / Ele confrontava-se com o pai que o mimou desde menino. O pai projetava nele o seu sucessor, o sucesso contínuo de seu próprio ser, do criador. O filho absorveu mas de modo algo diverso. Queria superar, mais que suceder. Tal como projetado o filho foi crescendo. Logo que pode caminhar por si passou a confrontar o pai. Já não era a criatura, era um rival opositor. A vida seguia acumulando confrontos e ofensas do filho agressor, reveladas ou veladas. Implicitamente ambos erraram. O pai por querer ser imortal, o filho por querer abater o pai para parecer que nasceu de si, sem criador. O conflito se instalou. Mas o vetusto pai, já apanhado, calejado pelo traquejo da vida, quietou-se, calou-se. O filho vigoroso jamais cedeu. Afastou-se definitivamente, brigou. E a vida, indiferente, assinalou o destino. Morte do pai. Fim. Velório. Então o filho chegou, puxou cadeira, encostou, chorou, soluçou, discursou ao pai, lamentou, justificou-se, agradeceu, pediu perdão, em seu pranto até gritou. Horas assim se passaram, até que o filho mais novo, o irmão, quase sempre relegado pelo realce do confronto, teve dele compaixão. Aproximou-se firmemente do choroso e sussurrou discretamente, com algo de piedade, algo de paixão, algo de amizade, algo de satisfação, até com uma pitada de ironia, mas com sinceridade e amor no coração, para não sugerir humilhação; "- Agora é tarde!".

(*) Juiz de Direito

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