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Creio porque é absurdo

Apesar de ser atribuído a Tertuliano, o adágio credo quia aburdum jamais foi empregado

19/05/2019 - 00:00:00. - Por Bruno de Assis

Apesar de ser atribuído a Tertuliano, o adágio “credo quia aburdum” jamais foi empregado pelo apologista cristão. Apenas traduz a essência de seu pensamento, refletindo sua posição de adversário irredutível da filosofia grega. Seu aforisma ilustra uma querela intensa que ainda hoje nos faz refletir: a oposição da fé e da razão. 

Devemos crer para compreender? Compreender para crer? Ou apenas crer? Como a ciência explicaria um mar que se abre e a terra torna-se seca para que um povo a atravessasse? E o dilúvio que inunda o mundo todo e dizima toda uma civilização?

Para quem não crê, a fé é, de fato, um absurdo. Se a fé não nos propusesse nada de incompreensível, ela deixaria de ser crença para transformar-se em ciência, conhecimento. Diante de alguns fatos, o que nos resta é suspender nosso juízo e realizar o salto da fé de Kierkegaard, como fez Abraão, o pai da fé, que ofereceria seu único e amado filho a holocausto por obediência a Deus.

Mas, se a religião apresenta elementos inapreensíveis para nós mortais, que contrariam nossa intuição, o certo é que nem toda ciência humana pode explicar a realidade por completo. O triunfo da razão, propalado pelos iluministas e por seus herdeiros falhou por não alcançar seus últimos desígnios.

A ciência e o conhecimento humano se mostraram falhos ao longo dos tempos, como nos demostra Thomas Kuhn e suas revoluções científicas. Novos paradigmas sucedem-se, derrotam os antigos e põem à prova a vaidade dos homens.

Guerras mundiais, revoluções, ditaduras e a opressão do homem pelo homem não nos permitem dizer que o esclarecimento levou a um progresso contínuo da humanidade em direção a uma pax perpetua.

Mesmo assim, o vício do intelectualismo, a crença vã na razão de que tudo se pode conhecer e explicar logrou por erigir a ciência como um ídolo e os cientistas como seus sacerdotes.

São Paulo apóstolo já alertava sobre os riscos de se reduzir a fé a uma questão intelectual, mera filosofia. “A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”, diria Paulo na primeira carta aos gregos de Corinto.

“Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não poderia negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer a verdade”, definiu o Concílio do Vaticano I. 

Creio sem precisar de um porquê. Só sei que creio. Creio porque creio.

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