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Uberaba, 21 de junho de 2021 -

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A Uberaba de outrora: as emoções do circuito do bolachão

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15/05/2021 - 00:00:00.

François Ramos – Redator Interino

No final dos anos 80 e início da década seguinte, o sábado era um dia especial para um grupo de jovens de Uberaba. A manhã começava com um belo banho, seguido do orgulho de fazer a barba para tirar aqueles primeiros pelos que a maturidade impulsionava brotar em rostos repletos de espinhas. A puberdade era denunciada numa fase da vida em que a música se tornava uma das principais motivações para acordar cedo.

Aqueles adolescentes que compartilhavam a vida e os sonhos ao caminhar pelas ruas do bairro Tutunas passavam pela padaria do Valdir (bem no começo da avenida Alfredo de Faria) pra comer um pão com manteiga quentinho, acompanhado de um cafezinho com aroma de pura energia. Era o combustível que precisaríamos para iniciar o nosso fim de semana com o tradicional circuito do bolachão (era dia de garimpar LPs e comprar K7s nas lojas do centro e bairro São Benedito).

Numa época em que todo mundo chamava o vinil apenas de disco, um grupo de quatro amigos descia a avenida Alexandre Barbosa, especulando sobre quais seriam os lançamentos da semana. Aquela caminhada de 20 a 30 minutos era marcada pela alegria de quem tinha esperanças em um futuro melhor e não tinha dúvida que, com música, ele seria mais divertido.

Apesar de no final da rua Artur Machado ter uma loja chamada “A Sertaneja”, especializada em discos raiz, raramente passávamos por ali; exceção acontecia apenas para comprar um LP de presente para os pais ou avós que aniversariavam. O primeiro ponto daquela turma era a Discorama, uma loja pequenina no tamanho, mas gigante no bom atendimento. Ali havia uma atendente mulata, de olhos azuis (ou verdes, não me lembro bem), que cativava com o sorriso aquele bando de moleques.

Apesar da beleza da moça, naquela época esse era apenas um detalhe interessante, algo que destacava a educação e a paciência que ela tinha conosco, sempre disposta a mostrar tudo o que havia chegado, embora raramente algum de nós comprasse algo além de fita K7 virgem, pois o perfil da loja era mais tradicional, focado no público acima dos 25 anos, bem diferente do som que rolava nos tradicionais bailinhos de garagem que a gente frequentava.

A emoção começava mesmo era quando entrávamos pelas portas da Center Discos (que ficava quase em frente a concorrente). Espaço amplo, com muitos toca-discos e lançamentos para todos os gostos. Os instrumentos musicais ali expostos eram objeto de desejo daquela turma, que acompanhava o sucesso de bandas como Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Titãs e Legião Urbana (que na época eu odiava).

O passeio musical pela Center, às vezes, durava horas. Cada um separava os discos que achava mais interessantes e seguia para os “pratos”, onde com fone nos ouvidos a viagem começava. Ali nos sentíamos reis, pois assim éramos tratados.

Muita coisa que a gente gostava não fazia parte dos catálogos tradicionais e, embora tivéssemos todos menos de 15 anos, a loja sempre aceitava nossas encomendas, sem exigir qualquer garantia. Um gesto de confiança sempre honrado por aqueles cujos poucos fios de barba haviam sido raspados pouco antes da visita semanal e que acabou por eternizar a Center Discos em nossas boas lembranças.

Pena que música na época era um produto caro para aqueles garotos que há pouco haviam começado a trabalhar. Não raro um LP dos mais “badalados” chegada a custar o equivalente a 20% do salário mínimo da época, o que na maior parte das vezes nos empurrava para o balcão das ofertas da semana. Mas uma nova loja começou a mudar isso. Na Praça Rui Barbosa, a Miami Express criara um novo jeito de vender discos: no crediário.

Instalada em uma galeria que hoje não mais existe (Supercenter), a proposta de parcelar o valor dos discos permitiu que eu comprasse dois LPs dos mais desejados naquele tempo: “The best of Information Society” (lançado pela Transamérica FM) e o álbum “Joyride”, do Roxette. Essas aquisições renderam vários convites para festinhas que ficariam mais interessantes com aqueles lançamentos e, também, muitas horas de gravações de fitas K7 para presentear as paqueras que a turma começava a ter. Detalhe que o presente agradava mais que flores!

Por outro lado, ainda estávamos fortemente influenciados pelo Rock in Rio de 1985, que nos apresentou no som metálico de bandas como AC/DC, Whitesnake (chamado às pressas para substituir o Def Lepard), Ozzy Osbourne, Scorpions e Iron Maiden, esta última até hoje a minha referência internacional preferida.

Por isso, seguíamos nossa aventura matinal de sábado rumo à Catedral Metropolitana, mas a intenção não era rezar, e sim dar uma passadinha pela loja mais alternativa de Uberaba, a “Rarus Discos”. Espaço pequeno, quase escondido, na lateral da igreja, ali as capas eram “demoníacas”. Aqueles guris encontravam o som de bandas pesadas, como Vírus 27 e Kaos 64 (ambas do cenário punk nacional), Anthrax, Possessed, Slayer e muito mais.

Camisetas pretas com caveiras, demônios, armas medievais e outros temas que arrepiavam nossos pais também podiam ser compradas por ali. Isso sem falar nos feltros para deixar personalizado os aparelhos 3 em 1 (toca-discos, rádio e toca-fitas) que todos nós já havíamos conquistado com o próprio salário: Para a maioria era CCE ou Frahm (que em nada diminuía o sentimento gostoso de ser dono de um som legal). Um Phillips ou Gradiente só se recebesse de “herança” ou presente de um parente abastado que estivesse atualizando seu equipamento.

Na Rarus, a gente também ficava por dentro das festas em que rolaria muito heavy-metal na ainda rural Uberaba. Foi a loja que alimentou a nossa esperança de sucesso e fez nascer a “Demons Exorcise”, com François e Júlio Riposatti nas guitarras e vocais; Luiz Baguá no baixo e Weslay na bateria. A sonoplastia era de Hilo Maia e contávamos com Anderson “Roceiro”, na segurança, e Paulo Eduardo (nosso roadie). Infelizmente, “o grande público” não gostou muito daquele som peso pesado que fazia o Sepultura parecer uma banda de baladas românticas! Mas lembranças maravilhosas foram gravadas neste pequeno grupo de amigos.

Seguindo adiante com a nossa caminhada, a manhã de sábado não seria finalizada antes de uma passagem pela rua São Benedito. A nossa amiga Beth trabalhava na Pop Discos. Aliás, foi nesse espaço que ficamos conhecendo o som inovador do “Faith no More” e nos divertimos com a insanidade de misturar metal com forró quando Jorge Cabeleira lançou seu primeiro álbum (“Jorge Cabeleira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis”). A gente ouvia e cantava a regravação de Carolina (sem saber que a canção tinha sido lançada por Luiz Gonzaga, em 1956) várias vezes ao dia.

A Pop Discos era a nossa parada final. Ao passar pelas lojas de vinil do centro, aproveitávamos para ir anotando o nome das músicas presentes naqueles discos que a grana não dava para comprar ou que eram portadores de um único sucesso (o que não era raro). Com as nossas seleções pré-prontas, antes de subir para a São Benedito, dávamos uma paradinha na “Lojas Brasileiras” para comprar fitas K7 virgens. Se eu estivesse “bom de bolso”, era uma Basf Chrome Extra II, mas, como a grana estava sempre curta, na maioria das vezes era mesmo uma VAT-C90 (Me lembro até hoje da caixinha prateada e preta cortada por algo parecido com um arco-íris).

Caso alguém se esquecesse de levar, era possível comprar a fita K7 virgem na Pop Discos mesmo. A mais popular da loja era a Scotch Bx 46 (embalagem combinava azul e prata). Com seleção em mãos, sempre sobrava um tempinho para completar os minutos que faltavam para finalizar o que “caberia” no cassete, e isso exigia ouvir mais discos. Depois, era só chamar a Beth e entregar a lista para que ela fizesse a gravação.

Como eu trabalhava pertinho da Pop, na Alvismaq (conserto de máquinas de escrever), ficava comigo a responsabilidade de voltar na segunda pra buscar as fitas gravadas, que, vale dizer, a turma já deixava pagas, pois era muito barato perto do custo de um LP novo.

Se tem algo que hoje tenho certeza é que a música fortaleceu a amizade daquele grupo. Hoje, mais de trinta anos após, percorrermos aquele circuito das manhãs de sábado, nos falamos diariamente, nem que seja para um bom dia, boa noite ou pra rir de uma piada. Também nos preocupamos com o bem-estar de todos, pois cada linha que um escreveu está presente na história do outro. Bons tempos que a vida nos proporcionou e que agradecemos a Deus por essa bênção.

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